terça-feira, 7 de abril de 2015

Hora da Faxina: Só o Morto não Riu



 Só o Morto não Riu.

   Nos idos dos anos 70 eu fazia parte de um conjunto musical que animava os bailes da região. O mesmo chegou a fazer fama pelo vasto repertório que apresentava e pela afinação de seus músicos. Integravam a banda 9 músicos, dentre eles, um trombonista. Tradição de pai para filho, seu pai também tocara trombone e a música corria em suas veias. Sempre que surgia a oportunidade de tocarmos no salão onde o pai do trombonista era proprietário, a festa era em dose dupla porque o velhinho, na altura dos seus 90 anos era muito enérgico, alegre e ágil, saracoteando por entre as mesas servindo bebidas e batatas fritas, rindo alto, fazendo caretas, deixando todos a vontade. E não se furtava de tocar lá pela metade do baile pelo menos uma ou duas melodias em seu velho trombone de latão desbotado juntamente com nossa banda.

   Quando isto acontecia, ele virava o centro das atenções e todos comentavam sobre a força que ele ainda conseguia imprimir soprando aquele instrumento. Depois de sua apresentação, o baile corria solto e animado e ele retomava seu posto de garçom.

   Após o baile, quando nós descansávamos e comíamos pão caseiro com linguiça regado a cerveja, o velhinho sentava na nossa frente, entregava o cachê a cada músico e intimava:

   - Quando eu morrer, você está convocado a animar o meu velório! - E enquanto entregava o dinheiro que cabia a cada um, ria com vontade deixando aflorar seus dentes com coroas de ouro reluzindo no fundo da boca.

   Quando o velhinho completou 95 anos, foi realizada uma festa muito especial pela passagem das bodas de brilhante, que ele, apesar de viúvo, fez questão de realizar. Ele já era viúvo há mais de 10 anos, mas esta data ele não quis deixar em branco, pois assim, teria mais um motivo para reunir toda a família, netos, bisnetos e tataranetos, parentes que somados enchiam seu salão de baile. E é claro, nossa banda da qual seu filho era trombonista, iria abrilhantar esta festa. 

   Chegou o dia e a fartura correu solta no evento. Carnearam uma terneira, um porco e algumas galinhas. Dias antes o velhinho recebeu de presente dois cabritos que também foram carneados. Fora as galinhas, o resto da carne toda foi assada em forma de churrasco. As galinhas foram transformadas na mais suculenta galinhada de toda a Linha Babilônia onde eles moravam. No alto do morro se via a fumaça saindo pela chaminé da churrasqueira, inebriando o paladar dos presentes com aquele aroma típico de carne assando. As crianças, famintas, já rodeavam os assadores querendo lasquinhas de carne, mesmo que ainda estivesse sangrosa. E alguns dos adultos, já sentindo o chopp nas veias, iam na carona das crianças querendo também lasquinhas da carne assada.

   Acompanhando o banquete serviram massa, aipim cozido, batata doce assada em forno de barro, pão de milho, farinha de mandioca, queijo ralado, salada de batatas em maionese, alface, couve e salada de tomates com cebolas. E para completar, na mais tradicional herança germânica, serviram curtidos de rabanetes, repolho, pepinos e beterraba. 

   A animação corria solta entre os gritos das crianças, risadas dos adultos e das polcas e valsas tocadas pela nossa banda. Foi um evento inesquecível, pois no meio da tarde o velhinho subiu no palco e acompanhou a banda com seu trombone velho, tocando várias melodias saudosas dos seus tempos de músico. A cada final de melodia ele era ovacionado pelos seus descendentes. E isto lhe causou muita satisfação e orgulho em ter uma prole tão grande. Antes de descer do palco, muito animado, pegou o microfone e pediu silêncio. Quando o burburinho aquietou ele disse:

   - Quero dizer a todos que a felicidade que sinto hoje nesta festa é indescritível. Jamais me senti assim! Obrigado por vocês todos fazerem parte desta família! ...e agora, convido a todos para comermos a sobremesa! - Uma grande salva de palmas ecoou pelo salão acompanhado de assobios aprovadores. O velhinho levantou a mão pedindo silêncio e continuou:

   - Mandei preparar sagu de laranja, de bergamota e de vinho. Também tem creme de leite, pêssegos em calda, ameixas e figo em calda. Sirvam-se! Mas antes, quero dizer mais uma coisa: no dia em que eu morrer, esta maravilhosa banda vai animar o meu cortejo fúnebre e tocar uma música de despedida para mim no cemitério.

   Entre diversos adjetivos de admiração e surpresa, no mais restava um silêncio total. Até que o filho dele, nosso trombonista se posicionou ao lado do pai, tomou-lhe o microfone e disse:

   - Só que isto vai demorar muito tempo ainda!!! Sendo assim, vamos tocar uma melodia juntos para animar esta linda festa.

   E a banda iniciou mais uma melodia animada, tendo o solo do dobrado feito pelos dois, pai e filho, com muito esmero.

   Mais três anos se passaram e o velhinho trombonista veio a falecer com 98 anos de idade. É lógico que no primeiro instante a consternação tomou conta do momento. Mas, aos poucos, relembrando tudo o ele vivenciara e levando em conta a sua alegria de viver e seu último desejo, foi decidido que nossa banda tocaria durante as suas exéquias e seu cortejo fúnebre.

   Toda a Linha Babilônia parou para o evento. Era numa quinta feira, manhã fresquinha, com garoa na madrugada e coberta de cerração na manhã. Mas, a capelinha, furtivamente construída do lado do salão, foi aberta para o velório. No amanhecer, aos poucos os moradores e vizinhos foram chegando e fazendo companhia aos parentes que já haviam varrido a madrugada em sua companhia. Nossa banda chegou às 9 horas da manhã, uma hora antes de sua encomendação. Preparamos os instrumentos e adentramos a capela. O ambiente não era consternador, e sim, de uma paz que convidava a todos a se sentirem bem e de certa forma conformados. O velhinho jazia em seu esquife cheio de flores, deixando a mostra somente suas mãos em forma de oração e seu rosto de expressão plácida e tranquila.

   Iniciamos a primeira melodia: uma valsa lenta, melancólica e marcante. Algumas senhoras começaram a chorar enquanto as outras pessoas murmuravam palavras de consolo aos frequentadores. Enquanto as melodias iam se sucedendo, o ambiente de pesado, ficou leve, tranqüilo, límpido e transparente. Parecia que as pessoas ficaram menos pesarosas com a partida do ente querido e que ali jazia alguém que realmente vivera sua vida em toda a sua plenitude.

   O padre chegou. Fez a encomendação do corpo, e, em seguida o cortejo saiu da igreja para o cemitério precedido pela nossa banda. Quem tomou a frente de todos era o gaiteiro, maestro da banda, que esmeradamente estava a tocar um fox tristonho.

   Quando ele desceu a rampa de gramado defronte à capela, coberta de orvalho, escorregou na grama molhada e caiu rolando até a estrada. O declive de uns 2 metros, enquanto ele rolava abraçado à gaita, fez ele manter as mãos nas teclas e tocar notas das mais estranhas possíveis: Nhéee, Nhuuu, Nhiiii, nhóoooo. Tudo soava estranho. Pararam todos. O cortejo parou. Depois de alguns segundos de silêncio sepulcral, só o grunhido da gaita, algumas pessoas começaram a rir. O cortejo se transformou numa gargalhada só. Os portadores do esquife do velhinho o puseram no chão e começaram a rir. Todos riram. Era uma risada uníssona e marcante, da qual jamais se esqueceria.

   E o maestro, abraçado à gaita no chão, permaneceu alguns segundos acompanhando as gargalhadas. Quando se deu conta, levantou e disse para todos os presentes:

   - Bom, acho que o velhinho não vai dar tanta importância a este pequeno acidente. Vamos adiante!

   E ele continuou a puxar a frente do cortejo tocando notas  melódicas de um fox tristonho. Todos tentaram se compenetrar mas era impossível. Agora as gargalhadas ecoavam por entre os montes. Nosso maestro continuou caminhando e tocando. Todos riam. Enquanto ele tocava, a cada puxada de fole onde ele o abria, caía uma grama para baixo saindo das dobras do fole. 

   E o enterro do velhinho não foi alegre, mas foi animado.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Arranjos de Pratos de Comida

 Bife à Milanesa, arroz com cenoura, maionese, abóbora curtida, alface, kiwi e pimenta pingo




 Carne de panela, aipim (mandioquinha), feijão amendoim, radite, pimentão vermelho, azeitona recheada com abóbora, rabanete e salada de repolho com tomate




 feijão preto, carreteiro de linguiça com couve, alface, vagem e pimentão




 Sobrecocha de frango no forno, massa com molho, farofa com mostarda, alface, pepino, abóbora, salada de beterraba crua com pimentão vermelho




 Farofa, supremo de carne suína, feijão preto, polenta, creme de espinafre, alface, tomate cereja




 Peito de frango no forno ao molho madeira, purê de batatas, repolho refogado com calabresinha e tempero verde, champignos e pimenta pingo




 Churrasco de costela bovina, arroz com batata, maionese, alface, pepino curtido, pimentão, moranga e farofa




 Coxinha da asa de frango + beringela recheada com bacon no forno, creme de rabanete, polenta, couve roxa com beterraba, alface americana




 Feijão amendoim, bife acebolado, aipim refogado com queijo e salaminho, alface, cenoura e pimentão de 3 cores.




 Canudinhos recheados com carne moída, creme de mostarda com palmito, aipim frito, maionese, brotos de espinafre e pimenta pingo.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Hora da Faxina: Arroz Reaproveitado



   Arroz Reaproveitado

   Não sei por que nas férias a gente cria hábitos diferentes dos praticados no dia-a-dia. É algo tão impressionante que chega a chamar a atenção. Acho que a rotina que muda faz com que muitas coisas sejam também diferentes, e a genta as pratica sem se dar conta. Uma delas é a higiene. Incrível, em casa se é tão cuidadoso com as coisas e nas férias, na praia, a gente passa por cima de certos detalhes que podem prejudicar.
   Numa dessas nossas férias em grupo na praia, estávamos em Itapema, um paraíso de lugar. Algumas casas alugadas no mesmo pátio, vários membros da família veraneando juntos, e cozinha comunitária. Coisinhas compradas, básicas, como açúcar, sal, óleo, detergente, cebola, tomate, alho, café, enfim, aquilo que se usa todos os dias e que se precisa dentro de uma casa, uma rotina para funcionar.
   Então, o açúcar e o sal foram colocados em dois potes quase iguais, só mudou a tampa entre eles, azul para o açúcar e verde claro para o sal, ficando juntinhos num canto do  balcão. Meu cunhado resolveu passar um café, daqueles de encher a casa com o cheirinho bom do café. Quando terminou, meu filho foi preparar uma xícara para a mãe e as tias, e em vez de pôr açúcar pôs sal. Foi um momento impagával a hora da tomada do primeiro gole do café salgado, todos logo cuspindo fora este líquido intragável.
   E enquanto as férias corriam, num dia desses, turma grande, onde não se sabia exatamente a quantidade de arroz para fazer, foi feito uma panelada de arroz e sobrou muito. Algo para uns dois ou três dias. Como não tinha lugar na geladeira, ele ficou no canto da pia, sendo aos poucos reaproveitado. Pra variar, guardado na sua panela de alumínio onde havia sido feito.
   No terceiro dia, vendo aquele arroz reaproveitado mais uma vez, na hora do almoço vi meu filho servir colheradas deste arroz em seu prato. Eu olhei para ele e fiz discretamente que não com a cabeça, imitando alguém vomitando. Meu filho fez ar de interrogação, tipo: "Como vou devolver este arroz?" - e eu fiz um gesto com a cabeça tipo: "Devolve ele!" - Ele captou e foi fazendo de conta que estava servindo arroz, mas na realidade estava pegando e devolvendo o arroz do prato dele para a panela. Foi uma cena muito engraçada, eu tive que rir do jeitinho dele de fazer aquilo para ninguém perceber ele devolvendo o arroz do prato dele. 
   Eu, rindo largado deixei todos à mesa apreensivos por tamanhas risadas e o motivo disso. A cada colherada devolvida, mais eu ria. Alguns até se contagiaram comigo rindo junto. Mas um cunhado meu, mais sério, ficou intrigado e quis saber o motivo da piada. Então, meu perguntou:
   - Ué, por que você está rindo? ...Qual é o motivo de tanta graça?
   Então eu respondi rindo ainda mais:
   - Alguém funou aqui na mesa! Hahaha, resta descobrirmos quem foi!

terça-feira, 31 de março de 2015

As Máximas de Bere 3 - Pensamentos, reflexões, verdades

Pensamentos de Bere que foram postos em cartas escritas há anos, ou mais recentes deixadas escritas em algumas pastas do seu notebook. Bere faleceu em setembro de 2013, mas deixou este legado maravilhoso de ideias que fazia sobre a vida, o dia a dia e o amor.












segunda-feira, 30 de março de 2015

Hora da Faxina: O Negociante



 O Negociante

   Antigamente para as pessoas do interior terem acesso a bens, novidades, coisas úteis para o dia-a-dia passavam por dificuldades grandes, já que morando em vilarejos como Harmonia, onde não apareciam produtos novos e raramente os mascates passavam para atualizar os clientes com novidades, ficavam à mercê da boa vontade de alguns aventureiros, que iam até Porto Alegre comprar o que estas pessoas desejavam ter. Neste sentido tinham uns experts que se sobressaíam pela tática e qualidade de escolha nas compras.
   Mas o que acontecia, é que traziam geralmente os produtos superfaturados, expondo dificuldades na aquisição, produtos escassos, enfim, uma ladainha que fazia o valor do produto final ficar bem alto para o bem do negociante. E eles lucravam muito. Claro, algo tinha que compensar seu empenho de ir até Porto Alegre, naquela época em uma grande parte da estrada ainda sem asfalto, poeirenta e asfixiante.
   As listas eram grandes, desde tecidos de pelúcia, seda, algodão, enfim, estampas diferentes e vários rolos para as costureiras fazerem as roupas das famílias sem repetir o tipo de tecido. Assim, apesar da simplicidade, muita elegância acontecia nos eventos sociais que eram raros, mas que reuniam toda a comunidade.
   O comprador então, ia com seu automóvel a Porto Alegre, levando listas e listas de produtos, todos pedidos de clientes, e ainda à cata de novidades, que certamente tinha compradores interessados, sempre. Hoje em dia seriam Ipads, Iphones, pendrives de trinta e dois giga e por aí vai. Naquela época eram ventiladores grandes, vinte e cinco centímetros, um turbilhão de vento, batedeiras com dois batedores, aspiradores de pó que sugavam até a água do tapete, tecidos sintéticos com banlon, volta-ao-mundo, tergal. Listas estas que faziam o lucro do vendedor. O problema era como avisar os clientes da chegada do produto.
   Então teve um negociante que descobriu uma maneira bem legal de fazer seus clientes saberem da chegada do produto. Domingos de manhã na missa, o padre sempre rezava uma parte da ladainha, e enquanto ele chamava o santo, o mercador chamava o produto e o nome da pessoa, dizendo o preço final. Para não dissonar tanto em relação à fala do padre, o comerciante trocava o Real por nós. Cada nó era um real. As pessoas já estavam acostumadas a isso. Era mais ou menos assim: o padre dizia:
   - Santa Emília... - E o mercador gritava junto:
   - Sandálias da Cecília... - E o padre terminava:
   - Rogai por nós! - E o comerciante acompanha:
   - Vai dar vinte nós!
   E o padre continuava a ladainha:
   - São Joaquim... - E o comerciante acompanha:
   - Panela da Elza para aipim...
   - Rogai por nós! - Mais uma vez o comerciante acompanha:
   - Vai dar cinquenta nós! - E o padre:
   - São João Nepomuceno... - E o comerciante no mesmo ritmo:
   - Pilão de ferro do Seno... - E no "rogai por nós" vinha o preço:
   - Vai dar setenta nós!
   Um dia, ele querendo tirar vantagem sobre uma nova forma de fazer wafer no fogão a gás, uma novidade para a época, encomendada por uma cliente, fez ele pensar como avisaria isso para ela. Não teve dúvidas. No fim da missa, quando as pessoas começaram a sair, ele foi, fez genuflexão do lado da cliente e disse contrito enquanto fazia o sinal da cruz:
   - Tua máquina de fazer waffer no  fogão à gás chegou. Só que está um pouco mais cara: agora custa quarenta reais.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Hora da Faxina: Olhares



   Olhares

   Gosto muito de prestar atenção no olhar das pessoas. Sempre revelam algo sobre esta pessoa, sobre seu gênio, sua segurança, sua alegria, sua ansiedade, enfim, olhares podem revelar completamente uma pessoa, pois os olhos não conseguem esconder o que as palavras podem desviar.
   As crianças espelham sempre de dentro de si uma sinceridade que faz um bem danado ao olharmos em seus olhos. Ou, também, podem olhar com medo quando se sentem acuadas ou em perigo. Só com o correr dos anos é que elas conseguem aprender a dissimular um olhar neutro, que não as deixe mais tão transparentes.
   A coisa mais chata que pode existir é quando a gente vai conversar com alguém e esta pessoa fica desviando continuamente o olhar. A gente se sente 'errado', algo como se estivesse falando com uma pessoa falsa, ou que sua conversa estava toda sendo superficial, sem sentido e sem noção. Ou, então, que não tiram o óculos do sol nem por decreto. Putz, nunca vi coisa mais chata do que conversar com alguém dentro de um ambiente, longe da luz do sol onde o indivíduo não tira o maldito óculos de sol. Eu fico deslocado, e geralmente não estendo o assunto já que não vejo na expressão do olhar da pessoa que está conversando comigo o que é verdade ou não.
   Bonito mesmo é conversar com o olhar, sem falar. Porque com o simples jeito diferenciado de olhar podemos sorrir, negar, sentir, desabonar, elogiar, consentir, desejar e, principalmente dizer o quanto amamos. Dizer que se ama com o olhar é muito gratificante para quem recebe este olhar. Também para quem o dá por ter podido transmiti-lo.
   Dentro do olhar das pessoas se escondem todos estes detalhes. O mais interessante é que não precisamos aprender como descobrir dentro dos olhares estas coisas todas. Elas vêm conosco, é genético. Qualquer um sabe quando um olhar o manda para aquele lugar ou quando se é mirado com ódio. Ou, claro, quando se é amado com um olhar daqueles de balançar de verdade.
   Um dia, duas amigas estavam conversando, quando uma perguntou:
   - Laura, o que fez com que Isaías te conquistasse?
   Laura respondeu:
   - Ah Alice, foi o olhar malandro dele.
   Alice, fazendo um olhar incógnito disse: 
   - Ué, mas Isaías não tem olhar de malandro. Ele sempre me parece olhar tão sério, tão sóbrio... - Ao que Laura fulminou:
   - Mas tinhas que ter visto o olhar dele quando me viu a primeira vez tirando a roupa no motel e o que se seguiu a este olhar.
   - Ah, tá explicado! - Disse Laura. - Certamente foi o que se seguiu a este olhar!

terça-feira, 24 de março de 2015

18 Meses sem Bere, Viúvo.




18 meses sem Bere, viúvo.

   Hoje estou há um ano e meio afastado de Bere. O destino a me levou. O que posso dizer? O sentimento da ausência dela ainda está muito presente. Toco minha vida normalmente, mas tem momentos onde a falta das coisinhas bobinhas que aconteciam em nossa vida diariamente me fazem muita falta. Uma pia entupida, um varal rompido, um bolo queimado, e a chamada de Bere para eu vir correndo acudir. Áh, como estas bobaginhas fazem falta. Fazem muita falta! São estas coisinhas que alimentam uma relação, e não um jantar à luz de velas ou um carro novo. Valorize seus pequenos feitos e defeitos diários, pois são eles que farão você sentir saudades de quem amou e que partiu. E para relembrar este ser especial, esta grande mulher com quem eu tive o privilégio de conviver durante 33 anos, mais um trecho da releitura do livro que escrevi sobre ela:

   "A quimioterapia além da químio, foi uma verdadeira terapia para mim e Bere nessas intermináveis seis horas de sessão, onde ficamos confinados a uma salinha confortável, enquanto a medicação era lentamente injetada no sangue. Revemos muitos conceitos de nossas vidas em nossas conversas demoradas, falamos sobre tantas coisas que daria para escrever mais um livro só sobre estas conversas. Nosso passado, rebuscando lembranças doces e rindo sobre situações que atravessamos juntos. Este belo passado que nos transformou nesta linda simbiose. Falamos muito do presente, do tanto que tudo isto, este acontecimento, estava afetando nossas vidas e no tanto que tivemos que nos adaptar a tudo isto. E algo do futuro incerto também, onde Bere sempre iniciava dizendo: “Quando eu faltar..." – Eu me sentia desconfortável com esta frase. Muito. Mas Bere a repetiu tantas vezes que acabei me acostumando a ela. Numa sessão, em uma de nossas conversas ela iniciou:   
   - Quando eu faltar... 
   Eu xinguei mais uma vez:
   - Este tipo de assunto não me interessa Vidinha. Já te falei que "quando faltar" está muito longe de acontecer.
   E ela retrucou:
   - Repito: quando eu faltar, quero que continues valorizando todas as coisas pequenas que nós juntamos e as fizemos serem grandes em seus resultados. Aquele sorriso, sabe? ...Valoriza ele. E muito! Porque portas se abrem com este sorriso. Tu tens tua simpatia, Pio. Soma ela. Faça mais pessoas felizes e eu estarei feliz por ti. ...Tens dentro de ti uma criança que contamina com tua energia, teu modo de ser. Eu quero que continues sendo assim, este bobão que sempre foi. E não lamentes minha falta...
   Eu já muito chateado, deslocado com sua conversa, cortei a fala dela respondendo:
   - Que assunto esse, amor? Vamos falar de outras coisas, de nosso futuro, que tenho certeza ainda vai ser muito intenso, a viagem ao Caribe, a Portugal...
   E ela, também cortando minha conversa, insistiu em continuar: 
   - Quando eu faltar, Vidinha, não desampara nossos filhos. Continua sendo o que eras com eles e um pouco do que eu seria. ...Vais precisar me acrescentar no teu amparo, nas tuas tarefas, a casa vai se acumular de tarefas que devem ser cumpridas. ...Roupas, compras, logística, e também no cuidado com o pagamento de nossas contas ...já que eu não vou mais estar aqui...
   Bere rebuscou mentalmente o que havia falado e então seus olhos foram aguando lentamente enquanto eu a fitava segurando sua mãozinha que não estava no soro. E ela arremedou com o queixo tremendo: 
   - Do que eu... seria... ...Notou que já falo de mim ausente? ...Nossa, isto dói muito, muito. Não me imagino em outro plano abrindo mão de vocês... A falta que vou sentir de vocês. E a falta que vocês vão sentir de mim... Ainda não tivemos netos querido. ...Quando vierem faça o papel de nós dois. Por mim tá? Sei que não vou alcançá-los. Nossos filhos nem namoradas ainda têm!
   Aquilo me desceu com uma dor sem tamanho, e mesmo não querendo manifestar, quando menos esperei, já estava com os olhos também marejados. A ideia dos netos mexeu comigo. Ela tinha razão. Tentei xingar mais uma vez, mas ela soltou sua mão da minha, botou sobre minha boca a tapando e disse:
   - Meu querido, ouça: sinto que vou faltar. A gente sente isto. E muito antes do que tu queiras ou imaginas. Mas eu te peço sinceramente: toca tua vida. Foca em ti e nos meninos. Não me esqueça, mas não me faça atrapalhar teus passos. Quero ser tua doce lembrança, teu passado bom, nada mais. Tua vida será tua, a tua continuação, com novos rumos, novos horizontes. 
   Eu, marejado, lágrimas pingando no chão, a olhava profundamente enquanto ela falava isto, sua mão ainda tapando minha boca, então Bere disse inconformada, mas doída:
   - Aaaaah, Pio, para de me olhar com pena, vai? Tá me deixando sem jeito! Vivemos tudo o que o amor pode oferecer. Quer mais? Impossível!
   Eu tirei carinhosamente a mão dela que estava tampando minha boca, a abracei meio desengonçado por causa do soro na outra mão que não podia mexer, e choramos juntos amargamente no meio daquele monte de equipamentos da sala de quimioterapia, e enquanto chorávamos cochichei no seu ouvido:
   - Quero que este amor dure ainda muitos anos, isso é o que eu quero!
   Bere, me molhando a orelha com suas lágrimas só sussurrou: 
   - Tudo valeu a pena, isso é que importa! Não importa o tempo que tenha durado. ...Mas eu queria muito que durasse também mais muitos anos.
   E nosso choro chacoalhou nossos corpos no mesmo ritmo, numa dor profunda. No fundo, na salinha, a tv tocando sua programação num volume baixinho e na ante-sala a técnica Jovana preenchendo relatórios sem se dar conta do que acabáramos de conversar vivendo e tecendo nosso drama. Era a hora do meio dia e tudo estava silencioso. Isto aconteceu apenas dois meses antes de Bere partir."

sexta-feira, 20 de março de 2015

As Máximas de Bere 2 - Pensamentos, ideias, dicas, ensinamentos


   Pensamentos de Bere que foram postos em cartas escritas há anos, ou em algumas pastas do seu notebook. Bere faleceu em setembro de 2013, mas deixou este legado maravilhoso de ideias que fazia sobre a vida, o dia a dia e o amor.










Hora da Faxina: Figuras da Praia





 Figuras da Praia.

   Eu adoro sentar na frente do mar, guardassol aberto, ver o próprio movimento do mar, seu barulho acalmador e ver as pessoas que circulam pela orla. Principalmente as pessoas e o que fazem. Tem tantas. Indescritível, pois tem tantos símbolos folclóricos, que a gente esquece de tudo, das correrias diárias, problemas, e estas cenas divertem muito.
   Em minhas últimas férias em Meia Praia, Itapema, em Santa Catarina vi muitas coisas engraçadas. Num único dia presenciei várias coisas hilárias. A começar pelo casal de gringos de fala de sotaque bem italiano com guardassol armado do lado do nosso. Eram os dois de já uma certa idade e junto com eles uma garota de seus vinte anos, branquela que dava dó, até fiquei com medo de ela se queimar demais. E a madona foi tirando maçãs da bolsa e descascando para cada um. O gringo, rançou: 
   - "Porca miséria Luzia, io quero una cervesa i non questa massán."
   - "Mandja la massán para forrar lo budcho i non ficar logo tchuco." - Disse a mulher sem tirar os olhos da maçã. E alcançou para ele. O homem deu uma mordida, comeu e enquanto a mulher descascava a outra para a filha, ou neta, o homem atirou a maçã fora, arrotou e disse: 
   - "Já mandjei la massán. Ora la cervesa, capicci?" - E abriu uma lata.
   Nisto, passava um homem com um carrinho mostruário destes de praia, cheio de chapéus e não muito longe de onde eu estava chegou um cara correndo e barrou o vendedor. Começou a olhar os chapéus, botava um depois do outro na cabeça e olhava para a companheira que continuou sentada embaixo do guardassol. A uma certa altura, ele botou um chapéu tipo safari, olhou para a garota, ela fez sinal de aprovação. Daí ele foi para perto dela usando o chapéu, ela fez uma selfie dos dois e o cara foi devolver o chapéu pro vendedor que ficou boquiaberto com a audácia do cara, em pegar o chapéu emprestado só pra tirar foto. 
   Mas o mais engraçado aconteceu uma hora depois. Chegou um casal de portenhos, idade já um pouco mais avançada. Se instalou embaixo de um guardassol minúsculo, que mais parecia um guarda-chuva. Assim que estavam instalados foram até a água carregando um tablet num suporte estranho e filmando tudo. Foi muito engraçado porque aquilo não se vê normalmente. Eu e meu filho rimos. Era muito inusitada a cena, porque a gente via o lado da tela do tablet registrando tudo. E perto de nós tinha um gazebo com três casais jovens instalados, que ao verem a cena, rolaram de rir. Era uma sequência de gargalhadas que dava gosto de ouvir. Ainda mais que já tinham tomado um monte de cerveja. E no meio de tantas gargalhadas, um que estava sentado perto de um dos pés que sustenta o gazebo, de tanto rir se jogou para trás e a cadeira caiu, vindo ele a chocar contra aquele cano frágil, que dobrou e o gazebo veio abaixo soterrando todos embaixo do toldo. A praia inteira riu. Foi um momento pastelão impagável.
   Enquanto isto, o casal continuou filmando no tablet sem notar o que rolava na areia da praia por causa deles. 




terça-feira, 17 de março de 2015

Hora da Faxina: Banho de Serragem



 Banho de Serragem

   Quem já se atirou alguma vez dentro de um monte de serragem como se fosse uma piscina? Acho que dá para contar nos dedos as pessoas que estão lendo esta crônica, e que quando crianças tiveram o privilégio de curtir com uma experiência dessas. Se jogar dentro de um monte de serragem é tão fofo, tão aconchegante, que fica difícil esquecer a experiência. Claro que depois de sair do meio daquele monte de floquinhos de madeira a gente sente todo o corpo pinicando, necessitando de um banho urgente para se livrar de toda a serragem que grudou no corpo. Ainda mais no verão, quando o suor funciona como ímã e cisma em empanar o corpo todo com serragem. Mas é uma paga dada bem gostosa pela experiência fascinante que isto proporciona. Cair dentro de um monte de serragem é como cair dentro de um monte de travesseiros de pena. Esta é a sensação.
   Quando eu era criança e morava em Harmonia, tinha a duas casas da dos meus pais, a serraria dos Calsing. Os filhos do proprietário eram nossos amigos,  viviam em minha casa e nós vivíamos na casa deles, principalmente passávamos o tempo na serraria. Claro, em fins-de-semana quando as máquinas todas estavam desligadas e não ofereciam perigo. Então, nós influenciados pelas séries de TV que passavam na época como Bonanza, Daniel Bone, Rim-Tim-Tim, Lassie e tantos outros, usávamos a serraria como cenário para nossos personagens copiados dos seriados. As toras de lenha, enormes árvores para serem partidas e transformadas em tábuas, eram para nós como vagões de trem, onde ficávamos em cima e imitávamos viagens em alta velocidade no trem.
   Perto daquelas toras então, uma pilha alta, de mais de dois metros, tinha uma caixa de serragem que o Calsing vinha acumulando. Acho que era para vender para os agricultores espalharem em suas roças e as tornarem mais férteis. Mas o fato é que tinha uma caixa enorme de serragem, de uns nove metros quadrados, de uns setenta centímetros, ou um metro de altura, onde eles iam botando a serragem dos cortes de toras e este monte ficava cheio nos fins de semana. Tão alto que emparelhava com a altura das toras de madeira que ficavam a quase dois metros de distância dali. E nós, brincando de trem em movimento, nos jogávamos para tirar o bandido do suposto cavalo, que na imaginação estava acompanhando o trem como nos filmes da época, e voávamos para dentro monte de serragem, gritando eufóricos como se tivéssemos derrubado o bandido do cavalo e rendido ele. 
   Às vezes, alguém se fazia de bandido e brincávamos de luta corporal rolando sobre aquele monte de serragem, espalhando ela para fora da caixa. A brincadeira rolava toda a tarde de domingo, quando finalmente algum adulto da família nos corria de lá porque tínhamos espalhado toda a serragem para fora da caixa com nossas estripulias. Bons tempos!