sábado, 15 de março de 2014

Cartas de Amor 4 - Eu Amo Você



   Cartas de Amor 4 - A Primeira vez em que dissemos: Eu te Amo!
   
   Pelas nossas cartas anteriores dava para notar que estávamos ansiosos por dizer um ao outro que amava. Interessante que naquela época a gente só dizia que amava quando tinha certeza do relacionamento ser verdadeiramente profundo. As palavras, parece, tinham mais sentido do que hoje em dia. E aconteceu. No domingo, dia seis de Abril de 1980, durante uma reunião dançante, onde fomos, no salão Fink de Harmonia, nossos olhos se cruzaram e dissemos ao mesmo tempo: Eu te amo. Um beijo, abraço longo e terno e a consolidação do nosso amor, nosso relacionamento.

   No dia seguinte, segunda-feira, eis na íntegra a carta que escrevi:

   São Leopoldo, 7/4/1980
   Meu Amor
   Todo o dia de hoje meu pensamento está profundamente voltado a você... Os momentos mais felizes de amor que já passei foram no transcorrer deste mês e meio em que nos conhecemos e, as melhores sensações de paixão e amor puro, profundo, passamos este fim-de-semana. Dei a você minha plenitude, algo que ninguém jamais até hoje de mim teve e fiz isto porque pela primeira vez amo de fato. Todos os meus sentimentos clamam por você. Assim, nasceram estas palavras...

   Reflexão:

   Você, com seu negro e doce olhar, me diz tanta coisa, me questiona tantas incógnitas... me sorri sem abrir a boca... me ilumina, me aquece, me fala de amor. Um olhar único, especial em todas as ocasiões. Esta sua qualidade me prende... e faço questão em continuar preso já que você aconteceu com tanta intensidade em minha vida. ...Seu olhar, belo e negro olhar... ah como ele me prende! Será difícil acontecer de um dia esquecê-la. Guardo comigo a sensação de seu olhar, e de seus cabelos que já tantas vezes roçaram minha face, arrastando consigo um suave perfume de orvalho de uma manhã de primavera. Sua beleza querida, está no puro de suas ações; está na face de seu rosto que nenhuma vez usou máscara, sempre foi real. Gosto de olhar para o seu rosto e pensar que esta beleza guarda em seu interior a minha pessoa. Você, amor, você é única, como o Sol é único para a Terra. Você é suave como é suave conversar com Deus. Você é autêntica como o ser é um autêntico ser. ...Agora estou olhando para esta caneta que você me deu: ela desliza pelo papel tão suave como as suas mãos em meu corpo... ...tudo entre nós dois é resumido em carinho. Um carinho que nos faz conhecermos cada vez melhor e ajuda a edificar esta bela obra que iniciamos. ...Penso nos seus pais. Você tem um tesouro em casa e nenhuma riqueza o compra. Prefiro chamar a eles de "pais" também, já que colocaram uma garota especial como você no mundo. ...Aí penso em sorrir. Sorrio às pamparrelas por tudo o que passamos neste 'weekend'. Foi bom, foi ótimo! Mesmo que o conjunto do baile não tenha sido grandes coisas, nos divertimos. E não esperamos para dizermos um ao outro que não só nos gostamos, mas que nos amamos! Dizer que se ama pesa muito! Só que quando nós o dizemos e dissemos, saiu e sai do fundo de nossas almas no momento preciso. Eu sinto isto. E como é bom dizer convictamente: EU A AMO! Não me arrependi de tê-lo dito e quero dizê-lo alto a todos para que participem de nossa felicidade. ...Agora penso nos instantes antes de irmos dormir... Você é sensacional, amor! Senti uma vontade imensa de não mais afastar-me de você. Você é especial em tudo, até para dar um beijo, um abraço, um afago. Chega as vezes ser difícil acreditar que nosso amor está tão favorável a nós. Mas acredito porque esta é a realidade. ...Como foi bom dar em você um beijo de bom dia. Quero dá-lo ainda muitas vezes, viu? ...Volto minha reflexão em você. Amor, quero que tudo o que já construímos seja melhorado e que continuemos sempre crescendo na paz, no amor, no otimismo, na paixão, na alegria, em tudo... e que as tristezas não se alojem em nós, que sejam passageiras.
   Querida, AMO VOCÊ!
   Um beijão tamanho família a você.

PS.: Leia a oração que fiz ontem de noite antes de dormir.

   "Jesus,
   Hoje resolvi rezar diferente do que é minha maneira habitual; resolvi conversar Contigo aqui sentado e escrever a minha prece. Sabe, faço isto para enviar estas linhas para a Berenice. Como ela é legal, Jesus! Sei que tu vês todas as nossas ações e deves estar feliz em partilhar da nossa felicidade. Desculpe por não sermos cristãos exemplares. Mas procuramos ser autênticos assim como estou sento contigo neste exato momento. Sei também que Tu nos aceitas apesar de nossos defeitos.
   Senhor, eu quero caprichar! Ajude-me a ajudar. Ajudem-me a fazer o mundo em minha volta mais feliz. Ajude à Bere a compreender-me e que eu a compreenda. Sabe, nós somos jovens, queremos lutar. Queremos trazer o bem a todo mundo. Sei que Tua força se fará presente todas as vezes que necessitarmos. Tu não esqueces ninguém. Os outros, inclusive talvez, nós, te esquecemos às vezes. 
   Jesus, ...agora até estou tremendo. Porque quero pedir encarecidamente a Tua força em nos auxiliar na construção de um amor eterno. Eu quero amar a Berenice eternamente assim como a estou amando agora. Sim, eu quero! Eu quero de corpo e alma! Amo ela, Senhor, estou transbordando de felicidade. Esta sementinha que tu colocaste em cada um quando nascemos que se chama AMOR, está florescendo. E não é só em mim, Jesus, é na Berenice também. Isto que é o belo, o bom e o bem que Tu fizeste. Obrigado tá? Abençoe a nós dois, amém. Boa Noite!"

   Amor, agora vou dormir. Pensarei em você, nos nossos momentos até adormecer, para acordar amanhã bem feliz e bem disposto.
   Um beijo, meu amor, Amo você!

   BERE ESCREVEU NO MESMO DIA E NOSSAS CARTAS SE CRUZARAM NOS CORREIOS:
   (embaixo ela formou um texto onde as letras iniciais de cada parágrafo formaram a frase: EU TE AMO.)

   São Seb. do Caí, 07 de Abril de 1980.

   Oi Querido!

   Como vai? Já sarou da ressaca de domingo? (Claro que não de bebida, mas de amor). Eu ainda estou embriagada de amor. Transpiro ele em todos os meus poros. Não consigo desfazer este arrepio que me acomete todo o momento em que lembro nosso olhar ao dizermos que nos amávamos. 
   Espero que tenha dado movimento aí no foto hoje (de clientes, não de fãs).
   Leia "fofo" o que escrevi:

   E-m minha vida nunca havia conhecido alguém que ocupasse o primeiro lugar em meu pensamento, em meu coração. Hoje já o conheço, é você, você em quem tanto penso, você que se tornou meu mundo. Amor! Foi maravilhoso ter te conhecido, está sendo mais maravilhoso ainda te conhecer cada vez melhor, teu ser, teus sentimentos, ter de você sempre mais carinhos, nunca brigas, mas sim, muito amor.
   U-m amor grande, recíproco, animado, otimista. Trabalho, descanso, leio, canto, vou para a loja, volto para casa, durmo, sempre pensando em você, sempre te querendo mais, te amando. Sabe, um desejo que tenho no mais fundo do meu coração é que...
   T-enhamos mais encontros como aquele de ontem, senti você. As palavras carinhosas que você me disse ontem estão guardadas em minha mente e coração, não canso de lembrá-las. Palavras que me deixaram feliz. Algo que penso muito é o nosso relacionamento de dois meses, se bem que dois meses não é grande tempo, e por outro lado é, pelo fato da gente não ter se desentendido, não ter discutido, usamos sempre o diálogo como nosso aliado.
   E- isso é o mais importante: que saibamos nos compreender, e no início de algum conflito torná-lo banal, sem sentido, certos de que não há razão para estes existirem. E sim, o contrário: felicidade, muita felicidade, total felicidade. Lembra,
   A-mor, foi o que te desejei para o domingo de Páscoa. Espero que tenha sido realmente de total felicidade. Eu fiz o possível para que ela se concretizasse, ou melhor, eu não fiz, aconteceu espontaneamente, sem esforço nenhum, pois meu rosto, meu sorriso, meus olhos (que tanto admiras), mostraram que o
   M-eu foi realmente um domingo feliz e com isto contagiei você, transformando numa Páscoa de amor. Ontem a gente colheu o que semeou, nada mais que o fruto do nosso amor que começa a amadurecer. E é este fruto amadurecido que vai contagiar muitas pessoas, aquelas que nos estimam, ficando elas felizes por nós.
   O- dia está terminando, mais um fim-de-semana distante estou esperando. Faltam ainda quatro dias para estarmos juntos novamente, 96 horas nos separam. Vamos trabalhar a favor das horas, amor?

   Pio, tudo isso para dizer: 
   EU TE AMO!
   Foi lindo e mágico quando ouvi de ti enquanto eu também dizia: Eu te amo! Assim fiquei sabendo que nosso amor é recíproco.
   Eu gostaria que você visse meus olhos neste momento, eles estão brilhando só de pensar em você. Não há palavras para expressar o quanto sou feliz.
   Dê abraços nos amigos, especialmente Sérgio (Juca) e Karim. O motivo especial do Sérgio é por que você fala muito nele, como um amigo muito querido. Se ele gosta de você, eu também gosto muito dele. A Karim, o motivo é simples: gostei dela.
   Pio, se possível telefone-me sábado? Eu juro que é a última vez que peço, sei que não é fácil para você e sei que as telefonistas ficam ouvindo nossa intimidade, mas gostaria de combinar melhor sobre o sábado e gostaria imensamente de ouvir sua voz.

   Mil beijos.
   Até Sábado.
   De quem te ama. AMA!
   Berenice

P.S.: Mesmo eu te amando não vou deixar de te adorar. Eu te adoro!!!



   

quinta-feira, 13 de março de 2014

Cartas de Amor 3 - Um Mês: Firmando Namoro



   Cartas de Amor 3 - Namorando há um Mês.

   Estou selecionando de dentro de nossa vasta correspondência, cartas que foram marcantes pelo conteúdo ou pela data. E achei que esta carta foi muito marcante pois estávamos em vias de completar um mês de namoro e nossa convivência estava se firmando. Nossos amigos céticos, aos poucos começaram a ceder a este relacionamento mágico, que teve desde seu início: sinceridade, amor, carinho, ternura e uma grande vontade em viver este amor em toda a sua plenitude.

   Carta escrita por Bere:

   São Seb. do Caí, 10 de Março de 1980.

   Olá, amor!

   Sexta-feira quando li tua carta, como sempre, senti uma confortante sensação de bem estar que me invadiu o corpo e logo também a alma, pois recebi notícias tuas.
   E, como não posso tê-lo ao meu lado, todos os dias e em todos os momentos, eu procuro ler várias vezes tuas cartas, sempre animadoras.
   Creio que este olhar verde e irresistível que a mamãe Natureza te ofertou, não tenha servido para derrubares mulheres aos teus pés. Gostaria que ele fosse só demolidor para mim.
   Como é suave ao meu espírito receber correspondência tua! Quão sublime é para mim, ganhar o conforto de tuas palavras, encorajando-me e fazendo-me forte, para suportar a dor da solidão quando sinto a tua falta, quando não tenho a doçura dos teus beijos ou a ternura das tuas mãos acariciando-me...
   Quando à tardinha o sol descamba no poente, colorindo a paisagem com seu vermelho divino... lembro da nossa despedida aos domingos e fico feliz, pois, se não existissem despedidas, não haveriam reencontros.
   ***
   Quando a treva desce à Terra, ofuscando o último raio de luz...
   Quando já não se escuta o gorjear alegre da passarada...
   Quando o vento frio da solidão sopra...
   e, sozinha e indefesa, sinto-me fraca e tenho medo de sucumbir no abismo de minha fantasia...
   Penso em você... porque você acalma minha alma, pois você lembra amor, carinho, doçura...
   "A qualquer momento penso em você!"
   Como é maravilhoso a gente gostar de alguém! Alguém para amar, de verdade. E como é sublime o amor!
   Assim como a alegria reina nos prados floridos ou a tranquilidade que existe nos ninhos, é como eu me sinto querido, porque tenho você, tenho seu amor, puro  e franco, para me adornar a vida.
   "E como sou feliz, meu amor!" Queria gritar isso para todo mundo, mas meu ser respeitoso me limita somente ao nosso mundo; quiçá um dia, posso torná-lo universal.
   E toda essa felicidade, é traduzida pela tua imagem agradável, sempre ao meu lado, para acreditar nas minhas queixas, e me conduzir para o caminho do bem.
   Eu acredito nas tuas palavras porque eu sei que elas são sinceras.
   Espero que nosso amor cresça e que se agigante em nossos corações.
   E ao que tudo indica, a luz suave do amor já desponta para nós no horizonte.
   Tantas coisas belas nos esperam e tudo se concretizará, se houver entre nós a compreensão e a concórdia.
   Lutemos, pois, para que os nossos sonhos se tornem realidade.
   Tenho vontade neste momento de jogar tudo para o alto, explodir, gritar ao mundo o quanto sou feliz, o quanto é importante você saber disso, você confiar em mim.
   Sabe? Tenho algo para dizer a você, algo que considero muito importante e é bom que você saiba, é alguma coisa nova que nasceu dentro de mim, um sentimento. Quero dizer pessoalmente a você e o momento está próximo de chegar.
   Querido, lembra-te sempre de mim, que eu não te esqueço um momento sequer.
   Pio, você me deu o prazer de mais um domingo feliz!
   Tenho que agradecer a teus pais, pois devo a eles a tua existência.
   Estou ansiosa para receber carta tua, espero que não demore, já estou com saudades!
   Te espero domingo pela manhã.
   A gentes esqueceu de combinar sobre sua vinda, então não irei te buscar na rodoviária, pois não sei a hora. Espero por você em casa, cheiros

a. OK?
   
   Gosto de você!

   De quem te espera! Mil Beijos!

   Berenice

   MINHA RESPOSTA:

   São Leopoldo, 12 de Março de 1980.

   Querida.

   Domingo fará um mês... Quatro semanas de felicidades, de realizações, de carinhos, de saudades, de expectativas. Você preencheu todas as minhas horas dos meus dias irradiando-me com o sol de sua simplicidade, de sua afeição. Construímos neste pouco tempo alicerces inigualáveis. O nosso pequeno mundo está se expandindo graças ao nosso relacionamento de bem e de boa vontade, sem nada forçarmos. Tudo acontece naturalmente. Nossos amigos e nossos conhecidos estão afetados, inebriados e contaminados pelo calor de nossa paixão pura a ponto de alegrarem-se com nossa paz, com nossa vontade imensa de caminharmos juntos. Todos torcem por nós, para que sigamos unidos. Todos veem em nós o exemplo de um encontro feliz e romântico. Aprecio isto e vivo sorrindo, sorrio comigo mesmo. Sorrio desvairado feito criança. Não canso de, ao deitar-me agradecer a Deus por ter-me feito conhecê-la. Ultimamente a minha oração quase só gira em torno da infinita felicidade em tê-la conhecido. ...E logo após o agradecimento, rogo uma prece pedindo ao Criador que nossa união se concretize sempre mais nos melhores laços de boa vontade, fazendo de nós um exemplo a todos os que não acreditam mais no amor, no relacionamento profundo entre um rapaz e uma garota; para que mostremos o bem, semeemos a felicidade e sejamos sempre os melhores otimistas; para que  não façamos juízo preconceituoso acerca  das ações das pessoas que se envolvem em nosso meio, e sim, saibamos compreendê-las na sua essência, como sendo seres humanos livres e independentes, de pensamentos próprios e invioláveis;  para que sejamos autênticos sem mantos nem máscaras: honestos  como são as abelhas ao tirarem do polem das flores, seu néctar, com a sincera intenção de fabricarem unicamente o mel, sem ao menos atentarem para  para o veneno de seus ferrões; para que a tristeza nunca nos assole, nos arrase, mas que quando se tornar necessária - o que é inevitável no decorrer de nossas vidas - sejá rápida e passageira, como o é uma tempestade de verão, e que depois novamente brilhe o sol com todo o seu esplendor.
   Meu bem, os momentos que juntos passamos, embora curtos, estou guardando como uma relíquia, um tesouro muito precioso que me inebria só em pensar nele, só em saber que, em todas as vezes que nos encontrarmos, este meu tesouro aumentará. Quero encontrá-la mais uma vez, mais mil vezes!
   ...Acabo de receber sua carta de segunda-feira. Concordo onde diz: "E ao que tudo indica, a luz suave do amor já desponta para nós, no horizonte!" - Aguardamos o raiar desta luz faiscante com ânsia, mas, quando se tornar presente, será perene.
   Obrigado pela surpresa de segunda-feira vindo me visitar aqui. Foi-me um presentão para um dia de trabalho. Agradeça à Silvana por tê-la acompanhado e assim poder ter vindo em São Leopoldo.
   A poesia, por mais simples que seja, sempre envolve nossos sentimentos porque ela nos arranca do fundo o que nossa alma transborda. Esta fala de nossa nuvem rasa, onde eu encontrei meu aconchego e onde você tem destaque todas as vezes em que a visitar. A fiz, querendo mostrar a você o quanto de atitudes minhas reconheço estar mudando, graças a ter você, a ter seu amor.

   Sobre a Nuvem Rasa 

Um olhar negro, brilhante,
Um suave conquistar...
Paz na fala, no semblante;
Muito amor para doar...
Dama igual ao diamante
De pureza exemplar
Procurava tempos antes
Sem podê-la encontrar.

   Só visava aparências
   Só visava material...
   Encontrava transparências
   Todas tinham tudo igual.
   Mudei planos, desenganos nestes anos
   Ao subir em minha nuvem rasa.
   Vi que eterno quase materno é o belo interno
   Que dá vida e amor em uma casa. 

Um olhar inteligente,
Coração tão grande ao mar;
Paz na fala comovente,
Muito amor para doar...
Encontrei em meio à gente
Alguém muito peculiar.
faço para eternamente
Meu amor poder lhe dar.

   Não há mais os meus conflitos,
   Tenho o amor que  me arrasa.
   Sonhos foram como os ditos
   Sobre a minha nuvem rasa.
   Seus olhos negros, de uma paz que satisfaz
   Como o Universo silencioso.
   Ver seus olhos minha estrela, minha bela
   Dá-me força e o ar de vitorioso.

   Te gosto muito. 
   Um beijo bem carinhoso,
   Pio


   

Bere com 18 anos e Pio com 21 anos


   

   

quarta-feira, 12 de março de 2014

Cartas de Amor 2 - Agora Namorando



 Cartas de Amor - Bere e eu, Agora Namorados.

   Começamos a namorar no dia dezesseis de Fevereiro de 1980, em nosso segundo encontro, no baile de carnaval do salão Fink de Harmonia. E, como sempre, Bere, quatro dias depois, tomou a iniciativa e me escreveu primeiro. Aqui, a segunda carta que trocamos, agora namorados. Aqui a  carta na íntegra:

   São Seb. do Caí, 20 de Fevereiro de 1980.

   Oi amor!

   Como vai?
   É tão bom poder escrever a você e iniciar chamando de "amor"!
   Pio, em uma parte de sua carta você escreveu assim:
   "Chorar... pergunto-me o porquê de existirem os olhos tão dados a verterem lágrimas se para sorrir basta deixar-se mostrar os dentes?"
   Sabe, concordo com você que a gente deve procurar sempre sorrir e não chorar... mas quando o choro é de felicidade, como se faz?
   Eu chorei pensando em você, como foi bom ter te conhecido, sei que a teu lado nunca vou sentir monotonia, sempre terei algo novo a aprender.
   Tenho muita esperança que nós combinemos, que caminhemos juntos como você mesmo falou.
   Achei ótimo o baile em Harmonia sábado, um dos melhores carnavais que passei apesar de termos dançado pouco, mas valeu principalmente o diálogo, porque nós nos conhecemos melhor, conversando, discutindo... E, quando me pediu em namoro minha alma estava gritando por este pedido. Meu coração explodiu de felicidade, só não quis demonstrar para eu parecer uma garota ajuizada. Mas fiquei com vergonha depois, por ter parecido tão vulgar em responder tão rapidamente que aceitava namorar com você. Nem suspense fiz! Mas eu almejava esta pergunta desde o início do baile. Não pude me segurar.
   Espero que esta semana os relógios colaborem e trabalhem mais rapidamente, e que domingo eles não mastiguem nossas horas como se fosse um mendigo mastigando o pão.
   Obrigado por você existir, amor! Agora meu namorado.
   "O céu para mim está mais azul, mesmo quando nublado."
   "Meus tempos foram preenchidos para eu pensar em você."
   Hoje a manhã passou depressa, pensei em você.
   Espero que  neste momento você esteja sentindo o mesmo que eu: "saudades!" 
   Falamos tanto em pensamento positivo, em otimismo, pensei tanto nisto que escrevi o que segue:

   "Otimista"

   "Jure a ti mesmo...
   Ser tão forte que nada possa perturbar tua paz de espírito.
   Falar sobre prosperidade, saúde, felicidade, para toda pessoa que encontrares.
   Olhar para o lado bom de todas as coisas e fazer com que teu otimismo torne-se real.
   Pensar somente o melhor, trabalhar somente para o melhor e esperar apenas o melhor.
   Ser tão entusiasta sobe o êxito dos outros, como o és do teu próprio.
   Esquecer os erros do passado e seguir em maiores conquistas no futuro.
   Usar uma fisionomia alegre em todas as ocasiões e dar a todos os seres vivos que encontrares um sorriso.
   Dedicar tanto tempo ao teu próprio aperfeiçoamento, que não te reste tempo de criticar aos outros.
   Ser tão forte para a angústia, demasiadamente nobre para a raiva, tão forte para o medo e excessivamente feliz para permitir a presença da tristeza."

   Se puderes, telefone sábado, ficarei contente em ouvir a tua voz. Quero muito ouvir tua voz.
   Espero por você na rodoviária domingo próximo como combinamos.
   
   Te gosto muito!

   Beijos!

   Berenice.


   A MINHA RESPOSTA:


   São Leopoldo, 27 de Fevereiro de 1980

   Berenice, querida,

   Quão afáveis foram os seus sentimentos ao delinear palavras tão agradáveis em sua carta, minha doce namorada. Recebi-a ontem e vi mais uma vez que a sua capacidade excedeu minhas espectativas. Quando a carta terminou, eu quis ler mais, ter mais folhas para senti-la, ter frases que não mais terminassem...
   ...Na realidade sua carta não terminou. Continuei suas frases aconchegantes em meus pensamentos. Imaginei você me dizendo estas palavras altruístas olhando em meus olhos com seu negro olhar. E você as disse sem titubear, convicta de que realmente a vontade, a força de nossos sentimentos nos levarão neste propósito. Esta convicção também me acompanha. 
   Você indagou em sua carta: "Quando o choro é de felicidade, como faz? ...Siceramente, não acredito que se chore de felicidade. Talvez, de emoção por um momento rico e feliz. Em pessoas adultas as lágrimas são um reflexo espontâneo de seus sentimentos ou pela emoção, ou por uma profunda tristeza, pesar, ira, tensão, e até de temor. Eu diria que as lágrimas de felicidade na realidade mostram o momento de emoção plena. Você pode ter chorado por mim temendo inconscientemente me perder, afinal, nos conhecemos há tão pouco tempo. Se felicidade fizesse chorar, querida, eu viveria chorando, ainda mais agora, que tenho você, que selamos nosso namoro. Espero que deixe de lado este temorzinho pois não há motivo para levá-lo: gosto de você! Estas três palavras são profundas e fortes e partem de minha alma. Não será fácil algo ou alguém me tirar desta convicção, amor. Falaremos sobre isto no próximo encontro, que espero ansioso.
   Amor, quer ver o que concluí de domingo? ...São frases soltas no ar que estão brotando involuntariamente assim como o orvalho brota do solo sem que alguém o obrigue a fazê-lo, mas todos se animam, ao ver aquelas pérolas dançando nas bordas das pétalas de rosas:
  
   "Barulhinho no Céu"
   
   A incerteza sobre se você virá ou não me atordoa; "Sim" - penso - "Mas ela gosta de mim, ela virá!" ...São dez para as duas. Folheio a revista, contudo meu pensamento não vê figuras, imagens. Vê unicamente você aparecendo de um canto de esquina. Meu coração palpita mais forte. Tenho toda a  tarde para acariciá-la, para conhecê-la um pouco mais. Queria todo o tempo do mundo, mas no momento será só por uma tarde... Que seja uma tarde eterna... ...até que a eterna tarde coroe nossos dias.
   A chamo, a encontro. Um beijo, um abraço. Nossos passos seguem leves, soltos. Não há distância, não há incertezas. Brotam palavras voluntárias, involuntárias, todas voltadas a nós, ao nosso mundo. Um mundo pequeno, só nosso, que tende a se expandir. E este mundo merece uma expansão porque nossos sentimentos concernem, são puros, confortam. As pessoas precisam de palavras alentadoras, positivas. Nós as temos e não é justo ficarmos sozinhos com elas. Sei que as distribuiremos a quem as solicitar, a quem fraquejar rumo ao pessimismo...
   Ao transcorrer das horas, beijos e carinhos. Tudo realizado com pureza, consentimento, harmonia. Palavras positivas brotam aos borbotões de nossos lábios, feitas nascente entre pedras que se transforma num regato manso, em paz. ...Um trovão se propaga sobre nossas cabeças, irado e atrevido. Todavia, em nosso pequeno mundo há sol e o céu é azul. Você comenta: "Tenho medo do barulhinho no céu!" - No mesmo instante sinto uma vontade homérica em abrigá-la com minha ternura de todo o temor que a pudesse amedrontar. Faço-o e você me recompensa com carinhos. Um afago especial que me gratifica, percorre toda a minha espinha, como um oásis gratifica ao nômade no meio de um deserto inóspito. Por que deserto? Porque no amor você é única. Meus sentimentos profundos estão voltados unicamente a você e vivo maravilhado neste oásis de compensações gratificantes: Seus beijos, seus carinhos. Por isso, mesmo sendo deserto, estão brotando tamareiras e papiros: nosso amor e nossa história que está começando. Que seja longa...
   A noite cai. Pesa-nos a separação, porém, ambos vemos que este distanciamento dá-se unicamente com nossos corpos. Nossas mentes continuam ligadas, unidas. E a luz de nossa paixão continuará brilhando enquanto houver energia para alimentá-la. Acredito nesta energia como creio em mim. Bere, obrigado pelo domingo! Ainda estou emaranhado neste sonho de amor que ora, acredito, começou. 

   ***

   ...Bem querida, acordei. Gostei de conhecer seus pais e o Ângelo. Comparo seus pais aos meus: a mãe, devotada, esperando sempre  o melhor para os filhos. Mãe querida, uma princesa no lar. O pai, uma figura sorridente e inesquecível. Interessado ao que o rodeia, estudando-me e aprendendo sempre. Em sua casa me senti como um irmão seu, tanto foi o carinho e  a confiança que eles me dedicaram. Queria que soubesse disso! Posso garantir que em minha casa você também se sentirá do mesmo jeito. Meus pais gostarão de você.
   Gostaria que você estudasse a possibilidade em eu ir buscá-la domingo de manhã e levá-la à Harmonia. Sábado telefonarei às 8:30 para saber e combinar certo o fim-de-semana. Só sei que quero encontrá-la, seja como for.

   Minha doce namorada, com carinho, um beijo,

   Pio



 Quando nos conhecemos éramos assim.

   

segunda-feira, 10 de março de 2014

Cartas de Amor - Primeira Correspondência



Cartas de Amor - Nos Conhecendo

   Estive revendo o vasto acervo de correspondência trocado entre mim e Bere quando namorávamos, pois morávamos em cidades distantes a trinta quilômetros e o telefone na época era algo muito primitivo. As cartas funcionavam melhor e davam mais privacidade. Pois, achei tão sublime nossa primeira troca de correspondência, que resolvi reproduzir na íntegra pela doçura que é. Nos conhecemos no dia 9 de Fevereiro de 1980 e dois dias depois, Bere, com a posse do meu endereço, resolveu escrever:

   Primeira carta de Bere para mim:

   São Seb. do Caí, 11 de Fevereiro de 1980.

   Olá Pio!
   
   Aqui tudo bem!
   Escrevo como prometi.
   Sabe? Simpatizei muito com você pelo seu jeito sincero de ser, de se comunicar, de falar tudo o que sente.
   Gostaria de ter conversado mais com você, pos a gente ficou junto poucas horas e quase não nos conhecemos interiormente.
   Vou escrever um pouco sobre mim, sobre o que sinto neste momento, para que você conheça um pouco dos meus sentimentos.
   "O tempo as vezes me confunde.
   As dores e alegrias são coisas que vivo, sou muitas vezes infeliz por aquilo que me falta  e pelas coisas que eu não possuo. Por que estou sempre a reclamar alguma coisa? Não sei.
   As vezes cavo uma barreira entre mim e o mundo, será que você também sente momentos assim?
   Na vida tem de tudo, parece um supermercado sortido, cada dia que passa é uma surpresa, uma revelação.
   Nesse momento estranho e atrevido me conscientizei que aquilo que se inicia a cada instante não pode ser a imensidão do nada.
   Agora neste momentou estou a rabiscar uma mensagem que é ao mesmo tempo inquietante, gostosa e secreta, que me faz esquecer de todo o resto, mas por isto é única e vale pelo que é.
   Espero que por mais diferentes que sejamos, sempre encontremos algo que possamos transmitir um ao outro, pois a troca de ideias nos faz crescer dia após dia. Sempre será mais uma experiência o que nos é acrescentado, porque as mínimas coisas também podem se tornar máximas, pois se não fossem estas muitas coisas, não existiríamos, seríamos vazios, indiferentes.
   Chego a ficar sem graça neste momento.
   Estou numa revolução interior.
   Acontece que sinto agora um amargo bem estar, quando dou livre curso aos meus sentimentos e mergulho neles como num banho.
   Eu agora gostaria de falar o que não sei, pedir o que não posso, dar o que não tenho.
   As vezes tenho medo de me mostrar ridícula aos olhos do mundo, pois as pessoas não parecem dar importância aos valores que não se compra.
   Sei que é preciso repirar, enxugar o suor, encontrar a fonte da água viva, o poço que secretamente alimenta a ternura humana.
   Como é frágil a minha vontade! Hoje sorri por nada, fiquei triste sem motivo. Senti que a vida está aqui a se oferecer toda, numa gratuidade milagrosa, e eu quero tanto fazer alguma coisa!
   Começar a ser uma ilha misteriosa em volta da qual eu começo a navegar.
   Andar sem hora, ser do jeito que se é, como a gente se sente, sem ter que se ouvir tantos palpites e justificativas a todo momento. É o direito que cabe a cada um!"
   "Mas não serei um tanto egoísta a meu modo de ser? Não sei. Você é quem deve interpretar!"
   Já chega, você não acha?
   Você já deve estar cansado de tanto ler.
   Pio, para encerrar só tenho a dizer que gostei muito de você, espero que a gente tenha a oportunidade de conversar novamente.
   Me escreva.
   Tchau! 
   Um abraço!
   Berenice Ramos.

   E MINHA RESPOSTA:

   São Leopoldo, 13 de Fevereiro de 1980.

   Berenice, tudo legal?
   
   Com esta carta-crônica sua, aqui só poderia estar tudo bem. É deveras interessante o seu modo de se apresentar detalhadamente a mim. Em cada detalhe você se identificou como sendo uma garota notável e perspicaz. Faço votos de que continue com esta mesma sinceridade e espontaneidade.
   Bem, naturalmente você deve estar querendo qeu eu também me apresente por dentro. E nada como um momento, uma reflexão para que isto aconteça:
   "Uma calçada cor-de-rosa, feita de pedras de arenito está sob meus passos medindo o teor e as calorias deste meu calcar insistente. Os passos são, ora frenéticos, enérgicos, denotando vivacidade, coragem e audácia. Por outro lado, em momentos diversos, os passos tornam-se lerdos, desalinhados, passos estes que denotam claramente incertezas ou, talvez, alguma tristeza forjada.
   E há as armadilhas. A calçada se torna irregular, esburacada, tentando com isto fazer-me tropeçar, cair. Em certos momentos atravesso-os com firmeza e indiferença. Os passos são precisos, dignos de apreciação. Dir-se-ia que são passos resolutos. Contudo, nem sempre os passos se desvencilham tão facilmente destas armadilhas, fazendo-me prostrar ao chão. Sem fôlego, grito com as palavras trancadas em meu pescoço, saindo ásperas, lixadas e rouquenhas:
   - Hei de lutar até que transpire a última gota de suor! Até que o verde dos meus olhos se torne supérfluo, como um simples adorno, perdendo completamente o brilho envolvente, espelho do interior de meu ser, de minha sinceridade e não enxerguem mais. Até que meu tato perca a sensação de uma pele feminina e macia, ou não mais diferencie o frio do calor. Até que meu coração não mais consiga palpitar desconcertado perante alguma pessoa amada fazendo-me perder o jeito, fazendo-me sorrir num tom amarelado para não demonstrar o rubor qeu se apoderou de minha face, ou, até que ele não mais acelere diante de um susto para dar vez à calmaria sinistra e hedionda da despedida do corpo com a alma, a morte. O fim, a trégua para uma luta incontinenti, vital."
   Tenho capacidade para realizar muito, eu sei! E luto por esta condição; nunca deixei a esperança de lado. Meu otimismo chega ao ponto de me inebriar diante de fatos desalentosos, diante de casos perdidos... Sim, mas Deus nos deu a esperança, a vontade de lutar, justamente para transpormos estas barreiras quase invencíveis e, muitas vezes nos cercam com uma invisibilidade plausível..
   Chorar... pergunto-me o porquê de existirem os olhos tão dados a verterem lágrimas, se para sorrir basta deixar-se aparecer os dentes? Você sabe por que? Não acredito em dó nem compaixão. Procuro unicamente sugerir as maravilhas que nos cercam porque o choro leva à autopunição, uma condição a que ninguém deve subjugar-se. E mesmo que digam que o sorriso dá 'pés-de-galinha', dá ruga no canto dos olhos, continuarei sorrindo até que me costurem a boca, até que me proponham estinguir-me por causa deste ato sereno e cordial.
   Reclamar... por que  reclamar se nunca me faltou o pão nem o abraço de um amigo se preocupando com o meu ser? Se eu me desenvolvi como a natureza estabelece, sem dar saltos nem com extravagâncias, perfeito? Porque não sou rico? Não, as coisas ínfimas, mínimas, mesmo não apreciadas por muitos que aspiram o poder, a vida sobrepujante e  impossível, são para mim como gotas de chuva que pingam aqui e acolá, até formarem um córrego borbulhante pelo qual chegam ao mar.
   Um sentimento que muitas vezes me atordoa involuntariamente é o egoísmo pelas pequenas coisas que são só minhas, que estão aprisionadas secretamente em meu ser e que em certos momentos são libertas sem eesforço pelas mãos calosas de interesseiros. Dá-se-me a impressão de que o dia apeou mais cedo do espectro celeste e que a penumbra vespertina se limita a cortejar unicamente a noite fria e tempestuosa. Mas estes momentos tropeçam em outras coisinhas ínfimas e gratificantes, pondo ao léu estas revoltas inconsequentes e incontidas. Há a verdadeira razão para os pequenos egoísmos: eles nos levam a rastejar aos nossos próprios pés para que possamos levantar-nos mais uma vez e novamente lutarmos por algo nosso de pés firmes e calcantes; para que acreditemos na esperança; para que nunca se desfaçam ao todo aqueles pequenos mistérios colocados em nossas ilhas e assim sempre tenhamos algo a desvendar.
   A aventura é própria do meu espírito altaneiro. Deixo muitas vezes a calçada cor-de-rosa para embarcar em alguma nuvem rasa que me leve às alturas. Sim, porque é impossível ficar caminhando, perambulando pelos quarteirões para tentar encontrar-me a mim mesmo.  Muitos dos meus momentos são lapidados pelas mãos, muitas vezes ineptas, de joalheiros materialistas. E eu sei que de cima da nuvem só eu me enxergo e vejo que possa estar acontecendo na poluição da vida materialista. Estes momentos são indubitavelmente necessários, pois, enlevam minhas qualidades de ser, estar , parecer. Tornam-me real como o ciúme das pessoas inconsequentes e pessimistas; como o mel que jorra do favo em recompensa ao labor das abelhas.
   As ambiguidades sempre haverão, eu sei. E acontecem como a calçada que ora é regular, bem acabada, ora é repleta de buracos, disforme. Mas o certo é seguir, andar, levar-me até que o cansaço me assole, me domine, pois sei que certamente encontrarei alguma árvore que me abrigue com sua sombra do faiscar do sol e me deixe ouvir o canto suave de algum passarinho feliz."
   Berenice, foi bom você ter acontecido em minha vida. Gostei deveras de você. Apreciaria muito encontrá-la sábado (16) no baile de Carnaval lá em Harmonia para conversarmos mais um pouco.
   Um abraço,
   Pio


Pio em 1980, com 22 anos.


Bere em 1979, final do ano, com 18 anos.

sexta-feira, 7 de março de 2014

As Entrelinhas



   As Entrelinhas.

   Estava olhando alguns álbuns dos tantos que marcaram nossa vida em comum. Tem fotos de todos os ângulos, situações e momentos. Muitas fotos só nossas, dos nossos primeiros anos de casado, pois o Wagner nasceu cinco anos após o nosso casamento. Tivemos tempo de nos conhecermos e principalmente, neste tempo, Bere conseguiu me transformar de marido para parceiro, companheiro. Tem diferença. Marido é o que supre o lar, não deixa faltar nada, é bom para a esposa, convive em harmonia e leva a vida a dois a sério. Tão a sério que deixa muito a desejar dentro do mundo da esposa. Porque em seu dia-a-dia geralmente não enxerga o que eu sempre falei: as entrelinhas. As entrelinhas são a teia de costura das almas e é ali que o amor realmente se torna plenitude. E Bere, em sua maneira simples e inteligente, me trouxe ao conhecimento destas entrelinhas. Como? Com o seu modo de agir.
   Tudo começou no meio da primeira semana de casados. A gente ainda estava vivendo a euforia do momento, afinal, tínhamos chegado lá, tínhamos nossa casinha modesta mas mobiliada com o essencial, de paredes cinza com janelas vermelhas, pintada por nós dois alguns meses antes do enlace. Por que cinza e vermelho? Porque na época não havia a comodidade de se fazer mistura de mil cores como hoje, então muitas vezes sobravam cores preparadas nas lojas de tintas, que ninguém comprava e que as lojas vendiam bem mais em conta por não terem saída. E foram estas duas cores que conseguimos bem mais baratas para pintar nossa casa. Por dentro e por fora. Até que a combinação ficou bacana! Era diferente, chamava a atenção. Principalmente o vermelho das janelas. Estávamos realizados, havíamos proporcionado uma festa de casamento para mais de duzentos e cinquenta pessoas, música ao vivo e chopp. Tudo ainda girava em torno da magia daqueles primeiros dias. 
   Tudo eram novidades. Bere, nos seus recém vinte anos feitos no dia do casamento, tinha a maturidade de adulta e a docilidade de uma adolescente. Eu me encantava com seu jeito jovem de viver, e mais ainda com seu jeito adulto de pensar. Então, numa noite, desta primeira semana de casados, preparamos juntos o jantar. Mesa simples: pão d'água do Nacional, nata, schmier e queijo. Ainda café de saco torrefeito na hora do Kleasi e leite 'in natura'. Tudo preparado, sentamos para jantar, Bere preparou o canto do pão para ela, pois adorava aquela parte para fazer um sanduíche. Colocou a mistura e um naco farto de queijo. Enquanto isto eu lhe servi café. Enquanto eu fazia minha fatia de pão, ela, depois de uma mordida, devolveu seu pão ao prato e, mastigando, começou a chorar. Desenfreadamente. Eu fiquei preocupado, achei que tinha acontecido algo. Levantei de supetão, fui do lado dela, a acariciei e perguntei: "O que aconteceu, amor?" - Ela, enquanto continuava chorando e mastigando, respondeu: "Estou com saudades da mãe, do café de minha mãe, do pão caseiro de minha mãe e da minha cama na casa de minha mãe." - Eu, como marido recente, achei aquela cena ridícula e tentei debochar: "O que é isso? Tua mãe mora a trinta metros daqui, na esquina, é só jantar e ir lá e matar a saudade dela. Que ridículo isso! Fazer esta cena no café, na primeira semana em que estás fora de casa, que era o que tu mais querias!" - Ela, na hora mudou de gênio. Me empurrou para o lado, foi até o banheiro, lavou o rosto, secou e voltou. Disse: "Senta!" - Até me assustei com o jeito como ela falou. Mas obedeci. Sentei. Ela continuou, me olhando fundo nos olhos: "Quando uma mulher chorar e der o motivo do choro, não quer dizer que este realmente é o motivo! A mulher sempre soma, não chora por uma coisa só. ...Se um dia eu chorar porque lasquei uma unha, não quer dizer que foi porque lasquei a unha. Quer dizer que eu fui acumulando vários motivos de choro e o lascar de unha foi o estopim. ...Entendeu?" - Eu, meio assustado, sem saber direito o que responder, balbuciei: "Mais ou menos..." - Ela foi, e sentou na minha frente, no outro lado da mesa. Quando estava acomodada, me encarou mais uma vez, sempre com seu olhar profundo, olhos negros, e disse: "Vidinha, tens que entender que a mulher é um caldeirão de sentimentos. No dia em que souberes pescar dentro deste caldeirão o que verdadeiramente estou sentindo, vais sentir o quanto de amor temos em comum. Vou te ajudar, vou te dar as pistas. Quero que aprendas, porque minha felicidade será sentir que realmente vives meus sentimentos, assim como viverei os teus." - Só fiquei olhando, sem entender direito. Ela completou: "Pronto, lava a louça que vou lá ver a mãe e terminar de jantar lá." - E foi. Por incrível que pareça, naquela hora que ela saiu, maldisse nosso casamento. Mas, era apenas o começo. E eu tinha que passar por isso tudo para aprender a valorizá-la do jeito como ela sempre mereceu ter sido. 
   Quando voltou, eu já havia desfeito a mesa, com meia janta entalada na garganta, morto de vontade de xingar, gritar, brigar, mas me contive. Afinal, não estávamos nem uma semana casados e eu tinha que descobrir esta nova Bere que se apresentava a mim. Chegou, me abraçou, beijou, e disse: "Vamos pro quarto?" - E a noite rolou maravilhosa como se nada tivesse acontecido. Pensei muito sobre aquele momento do jantar. E o fato me deixou mais atento para tudo o que ela fazia, sentia, enfim, comecei a entrar mais no mundo dela, como ela havia me falado. Seu jeito, talvez um pouco forte de me fazer ver seu lado foi me moldando. Pois cada vez mais prestei atenção aos sentimentos reais dela. 
   Mas a lição principal estava por vir. Estávamos casados em torno de meio ano, quando tivemos uma discussão séria sobre problemas financeiros. Algo que hoje em dia eu nem daria bola, mas que na época, pela dificuldade em fazer dinheiro e pelo jeito como ela havia agido, me fez discutir com ela. Eu tinha que pagar o aluguel do último mês de um espaço comercial que eu tinha em São Leopoldo. Quando fui na imobiliária para acertar, a dona da imobiliária me disse rindo que eu não precisava pagar, pois o dono do prédio tinha dito que era para deixar assim, não precisava pagar, já que já tinha entregue a peça. E eu não paguei. Quando voltei aqui para o Caí, e Bere soube que eu não havia pago, ficou possessa, me fez voltar a São Leopoldo para pagar este aluguel, porque não admitia ter usado aquele ponto no último mês e não ter pago o aluguel. Ela era assim: tudo certinho, tudo limpo, sem dívidas. Voltei no dia seguinte a São Leopoldo, morto de pena de desembolsar aquela grana de graça, a dona da imobiliária me debochou quando viu eu insistindo em pagar, e não quis dar recibo. Exigi o recibo, pois poderia ser até que ela embolsasse o valor e não o dono do prédio. Voltei para casa, enfurecido. Cheguei, esperei Bere voltar do trabalho e mostrei o recibo, perguntando: "Está satisfeita? Com este dinheiro poderíamos pagar nossa conta de luz quase meio ano aqui. ...E ainda tive que aguentar o deboche da dona da imobiliária!" - Ela pegou o recibo, leu, dobrou, botou no bolso. Com toda a calma me disse: "Estamos limpos na praça. Isso é que importa!" - Fiquei remoendo o resto do fim da tarde tudo isto, pensando na burrada dela, mas ao mesmo tempo no gesto nobre dela. E o conflito se instalou em minha alma. Eu não sabia se aplaudia seu gesto ou se condenava. Então me lembrei da unha lascada, do começo de casados. Senti um peso amargo por tudo que havia feito, porque ela havia me avisado para prestar atenção nas suas atitudes, mais precisamente nas nossas entrelinhas. E esta atitude era certamente mais um ensinamento para me fazer sentir nosso casamento nas entrelinhas.
   Nosso chimarrão do fim de tarde foi de pouca conversa. Banalidades, nenhum riso, frio e seco. Ela, bem antes do habitual, disse não querer mais, e foi tomar banho. E eu pensando só nas entrelinhas, o que fazer para entrar neste universo feminino, tão inquebrantável, inatingível para nós, homens, meio brucutus. Pensei: "Vou fazer um agrado a ela. Vou lá, secá-la após o banho." - Fui, esperei terminar o banho, e quando ela fechou o chuveiro, entrei no banheiro, peguei a toalha e quis cordialmente secá-la para me redimir daquele dia de conflito. Então, para minha surpresa, veio a segunda lição: Quando estava com a toalha na mão e ia tocá-la, ela puxou a toalha de mim e disse: "Está vendo?" - Eu estava embasbacado, sem ter onde enfiar a cara, muito menos ver o que ela queria mostrar. Mas, respirei fundo, louco para explodir num ato de machão ferido ao máximo em seu brio, me contive e perguntei: "O que?" - Bere docemente começou a alisar a toalha de banho, primeiro num lado, depois no outro, me encarando. Por fim disse: "Não está vendo? ...Aqui, olha a toalha: ela tem um lado liso e um lado felpudo. Tu estás sendo este lado liso, áspero, sem aconchego. No dia em que tu virares este lado felpudo, suave, aconchegante, te dou o direito de entrar no banheiro e vir me secar. Enquanto isto, vai estudando os dois lados da toalha. Sem aprender, não vais ter chance de me secar." - Minha moral caiu abaixo do meu chão. Que lição! Que tapa sem machucar, mas para marcar! Que jeito de me chacoalhar! Daquele dia em diante pensei muito no que tinha acontecido e no que ela havia me falado. E comecei a achar sentido no seu mundo, no lado feminino de viver. Custa ao homem se achar neste lado doce e diferente de ser, que só as mulheres tem. E, depois que descobri este lado, nossa vida virou uma simbiose. Tive que abandonar muitos conceitos e machices para entrar no mundo dela. Mas ela me proporcionou isto. E aprendi com ela, com seus ensinamentos, que este é o verdadeiro jeito de amar, amar totalmente, incondicionalmente, porque não se ama sem entrar no mundo da pessoa amada, conhecendo as entrelinhas.


terça-feira, 4 de março de 2014

Meu Primeiro Aniversário sem Bere.





 Meu Primeiro Aniversário sem Bere.

  No último domingo completei 57 anos. Foi um aniversário diferente. O dia todo, apesar da noite de companhias maravilhosas estive vazio. Muito vazio para mim, em meus sentimentos. Tive dificuldades para atravessar o dia e fugir do constante pensamento: "Se Bere estivesse viva..." -  A frase me perseguiu como algo que realmente quisesse me dar uma resposta. Mas a resposta não veio. Pensei diversas vezes no quanto ela estaria comemorando esta data. No quanto de tantas paparicações ela teria aprontado para transformar o meu dia em um dia especial. Nestas datas ela se entregava por completo para fazer o dia da gente. Lembro que no ano passado, era sábado, ela me esperou com uma cerveja aberta, quando saí do serviço ao meio dia e trinta, e disse: "Que esta seja mais uma de muitas que irão comemorar tua vida! Saúde!" - Me abraçou, beijou, encheu meu copo, tomou um gole e me deu. Em seguida, serviu um almocinho especial feito por ela com todo carinho. Imagino o esforço dela em fazer aquele almoço, porque ela não gostava de cozinhar. E estava muito gosotoso! Lembro também que ela já estava com os sintomas de dor, de todo o problemão que iria enfrentar dali pra frente e que culminaria com sua partida tão precoce. Mas ela enfrentou com uma força incomum todo aquele dia, recebemos nossos convidados e ela nada demonstrou. Ela se mostrou acolhedora o tempo todo e não demonstrou o que realmente estava sentindo. Bere segurava o abdômen de tanta dor com uma mão e com a outra trazia o prato de risoles para a mesa da festa. Eu havia reunido meus cunhados, irmãos e sobrinhos para cantarmos, e foi uma noite de muita alegria, de descontração e de folia. Minha família é muito festeira, montamos alguns equipamentos de som, e foi realmente um baile. De canto e ritmo desencontrado por falta de ensaio, mas procuramos ao menos afinar. Muitos dançaram se divertindo com as melodias. Até Bere dançou. Um pouco, mas dançou. Mas Bere, esboçando força e serenidade, viveu particularmente seu drama durante a festinha, e não me contou a gravidade de sua dor e de seu problema para não 'atrapalhar meu aniversário' como disse depois. Mas, foi no dia do meu aniversário do ano passado quando tudo começou. E a festinha correu solta, todo mundo sendo atendido, eu e os filhos ajudando Bere, e ela sorrindo por fora e se contorcendo de dor por dentro. A uma certa hora, no intervalo de nossa cantoria, vi que ela não estava presente e fui em busca dela. A encontrei no nosso quarto, porta fechada, luz apagada e gemendo de dor. Liguei a luz, fui para perto dela e quando ela viu a luz acesa, na hora reagiu, dando um salto na cama, dizendo: "Que foi, vidinha? Por que vei atrás de mim?" - Respondi: "Senti a tua falta e vim ver se está tudo bem. E pelo jeito não está!" - Ela se encolheu nos travesseiros e desviando o olhar de mim, disse: "Não! Está tudo bem, amor! Só estou um pouco indisposta e vim aqui me recuperar. Já tomei um comprimido para dor, e logo vai passar." - Coloquei a mão na testa dela, para sentir se estava febril, senti que não, então eu disse: "Querida, quem sabe, te levo no plantão? Vamos averiguar o que é esta tua dor. Pode ser apendicite!" - Ela abriu um largo sorriso e respondeu: "Bobo! Não é nada. Fosse apendicite eu estaria arrastando a perna. Juro, estou bem! Vai lá! Teus irmãos te esperam. Vai lá, canta 'Aline' para mim. Eu já vou." - Dei um beijo em sua testa e fiz que fui embora mas só fui até a sala e fiquei ouvindo seus gemidos para levantar e ir ao banheiro e lavar seu rosto. Minha vontade era de terminar a festa na mesma hora, mandar todos embora e cuidar dela. Mas eu tinha certeza que se fizesse isso ela ficaria muito magoada comigo, não me perdoaria. Voltei para fora onde estávamos com tudo montado e disse para o meu irmão: "Vamos tocar 'Aline'!" E a melodia correu. Já quase no fim da música, eu preocupado com a demora dela, Bere apareceu bela, linda, como em muito tempo não havia visto. Parecia remoçada, trocou de blusa e brincos, deu uma ajeitada no cabelo, desfez a maquiagem e colocou uma mais suave. Se recostou na parede na saída da cozinha, cruzou os braços e ficou me olhando o tempo todo, enquanto eu cantava. Eu fiquei feliz, ao mesmo tempo impressionado. Pensei: "Nossa, ela tá bem mesmo! Se remodelou para eu ver que está tudo bem com ela. Até a blusa ela trocou!" - Mas não. Depois da festa eu senti que ela havia feito aquilo do jeitinho dela de ser, só para eu não me preocupar com seu estado de saúde, para não estragar minha festa. Um estado de nobreza único, que só ela tinha. E eu, apesar de casado com ela tantos anos, a conhecendo como eu a conhecia, mesmo assim fui iludido com o que ela fez, se apresentando diferente, para eu relaxar e não me preocupar com ela. O quadro evoluiu, a dor aumentou e na madrugada depois da festa ela já passou praticamente em claro.  Então, no dia seguinte, no domingo, dia três de março, ela fez a primeira consulta e foi lá que seu calvário começou. Primeiro, passando quatro dias internada para curar uma pancreatite e depois, através das tomografias a descoberta de seu câncer.
  Meu aniversário neste ano de dois mil e catorze foi atípico. Não pela companhia das pessoas que amo que vieram e o prestigiaram e alegraram meu dia. Mas pela falta de Bere. Senti uma imensidão de vazio incomensurável. Senti o quanto de presente a pessoa dela ainda está em minha vida, mesmo ausente já há mais de cinco meses. Senti o quanto dói uma data especial sem a presença da pessoa que mais amamos. Depois do meio dia fui pegar a encomenda dos salgados e da torta na confeitaria. Eu estava completamente perdido. Não sabia se tinha encomendado o necessário para suprir todos os convidados e não sabia se o que tinha imaginado oferecer seria digno de uma festinha de aniversário. Pois quem sempre fizera isso foi Bere. Nem imaginava que tipo de torta comprar. Acabei pedindo a torta menos doce do catálogo.
  Domingo realmente pensei muito em Bere. Queria muito, queria demais a presença dela comigo. E, depois da festa, nem recolhi nada, deixei tudo atirado. Cadeiras fora do lugar, as duas pias, a da cozinha e da garagem cheias de louça para lavar, pratinhos descartáveis com restos de torta espalhadas por todo o ambiente, não mexi em nada. Porque quando ia começar a limpar e organizar, senti tão forte a presença de Bere como que me dizendo: "Hei, larga isso! Deixa pra amanhã! Vai descansar, deixa de ser tão certinho!" - Justamente o contrário do que ela era, pois jamais iria dormir depois de uma festinha sem tudo limpo, ajeitado e organizado. Então larguei tudo, fechei a casa e fui para o quarto. Antes de me aprontar para dormir, deitei na cama, abracei o travesseiro dela e chorei. Muito. De uma saudade sem tamanho, que não tem como descrever. De um sentimento tão profundo, de falta, de não ter mais a chance de ter de volta, que me deixou completamente desamparado. Literalmente, precisava de um colo. Chorei tanto que encharquei a fronha com minhas lágrimas.  Chorei uma saudade tão amarga como até aquele momento, em mais de cinco meses de viuvez não havia sentido e chorado, porque a data, mesmo sendo de comemoração e que ela prestigiava tanto, também foi um marco, o início de um caminho sem volta. Um caminho onde entramos de sola juntos e de onde eu saí ferido, machucado e onde ela saiu para ficar no cemitério. Meu aniversário sempre será ambíguo: de alegria por mais um ano alcançado e de sentimentos por marcar o início de um fim inevitável. E sei que em muitos outros dois de março vou passar situações semelhantes. Mas, tentando sempre ver o lado sereno da vida que me acolhe, vou procurar com o tempo superar e transformar meu aniversário somente em uma data de alegria e conquistas.
]
Começou a festinha deste jeito...

...Depois apareceu remodelada deste jeito.

sábado, 1 de março de 2014

Redes Sociais: Bere e Eu



Bere e as Redes Sociais.

   Bere e eu tínhamos o costume de namorar abertamente nas redes sociais. Desde o tempo do Orkut até o atual Facebook. Recadinhos embaixo de fotos, de posts, sempre recheados de paixão. E tínhamos um jeito de comunicar, sem tornar escancarado esta forma de namoro. Mas era pelo jeito como escrevíamos. Eu a conhecia tão bem que entendia o recado. O mesmo era a percepção dela para os meus recados. É uma pena que, a pedido dela em vida, deletamos suas contas nas redes sociais. Sinto falta de muitas coisas que ela escreveu.    Mas, vasculhando meu Orkut consegui salvar o depoimento que ela fez para mim e que reproduzo abaixo:

- 14/11/2009
Oi amor!!!
Hoje resolvi dxar um dp p/você!
Mas dizer o q? o q já sabes!!!
Que te amo, amo, amo, pra sempre! ...dizer o quão maravilhoso homem q és, o tanto namorado, amigo, amante....(e de quebra um cozinheiro, rsssssss...)
E pra completar me ajudou na educação de dois filhos maravilhosos, q nos enchem de orgulho e de felicidade!!!
Você é tudo!!!!
E o profissional!!!! Nossa, faz tdo c/ tanto carinho!!!! Sem falar em blogs, RCC, música....e mais, mto mais, que tenho o privilégio de só eu saber, he,he,he...
beijão!!!

   Me emocionei ao redescobrir este escancarar de amor dela por mim, publicamente. Algo que muitas pessoas nem tem coragem de falar em seu mundo a dois. Ainda bem que o Orkut não apaga o que a gente deixa lá, mesmo que seja postado por pessoas que sairam da plataforma social. Só assim consegui resgatar este depoimento. E mais uma vez fico sensibilizado com a doce forma de ela escrever, encurtando palavras. Parece que assim fica mais carinhoso ainda.
   Depois migramos para o Facebook, Bere com sua conta, eu com minha. E nossos recadinhos sempre amorosos, de um jeito de namorar diferente. Certo dia postei sobre uma gravação que havia amado fazer, sobre irrigação automática para arrozais. Ela curtiu e depois escreveu embaixo: "Esta vitória merece uma comemoração com uma jantinha especial. Com arroz. Ansiosa para ver o que vai preparar para acompanhar. Mas vindo de você, nossa!!! Não preciso nem escolher. Será da boa. Ah, pega um sorvete no Cruz, para sobremesa." - E eu, rindo, respondi no post: "kkkkkk, nem tinha pensado em janta hoje. Mas, como pediste 'jantinha', tão docemente, como vou negar? O sorvete já está comprado. Prestígio. Serve?" - Ela curtiu e respondeu: "Sabia que tinha segundas intenções kkkkk. Você quer me prestigiar né? Eu topo!" - Nossa noite foi maravilhosa. Ela se entusiasmava com minhas conquistas, do mesmo jeito como eu sempre comemorava suas vitórias, suas realizações. Tínhamos uma forma de conversar através dos posts, que mostrava uma química muito gostosa, sempre com bom humor.
   Outro dia, Bere postou uma foto no face de um homem saradão. Barriga de tanquinho, sarado, malhado. Escreveu embaixo para suas amigas: "Meninas, eu tinha que compartilhar. Sei que o Pio vai me matar, mas é muita areia para nosso caminhãozinho hahahahaha." - Surgiram vários comentários das colegas dela. Eu curti e escrevi: "Pode admirar a vontade. Ali é só foto. E eu, você me tem ao  vivo. Apesar de o tanquinho estar cheio kkkkkkk." - Ela curtiu e respondeu: "Mil vezes tu com tuas imperfeições físicas mas teu interior maravilhoso. Este é que vale. Mas dá um jeito de caminhar né? kkkkkk." - E eu comecei a caminhar. Assim namorávamos nas redes sociais. Muitas vezes comentamos sobre a ciumeira que é gerada entre namorados ou casais justamente por policiarem um ao outro pelo que curtem ou escrevem. Ou ainda, pelas novas amizades que criam. Nós nunca tivemos barreiras neste sentido. Sempre fomos abertos e liberais, já que estas redes sociais justamente funcionam para agregar pessoas de mesma profissão, de mesma ideologia, ou de amizades antigas e novas. Tudo é possível.
   O amor verdadeiro é aquele que dá liberdade. Já escrevi sobre isso. Porque se amamos alguém, temos que deixar a liberdade fluir e fazer o mundo da pessoa amada. Jamais cercar e policiar. Pois quanto mais presa a pessoa for, mais alto será o vôo no primeiro momento de sua liberdade. Amar é deixar a vida escrever sua história enquanto nossos sentimentos só cuidam de elevar a energia e estima de quem amamos. Só assim se consegue amar de verdade. Não tem outro jeito. Um amor que cuida é muito diferente de um amor que prende. Porque cuidar é ajudar a estimular todos os potenciais de quem amamos. E isto sempre envolve pessoas fora de nossas relações que fatalmente irão se tornar parte deste todo que é o mundo de quem amamos. A liberdade faz com que nossa cara metade desenvolva em sua plenitude toda a sua capacidade, seu potencial. Já quem prende, coitado, coitada. Viverá num mundo de incertezas, de medos, de dúvidas e de desassossego. Vive infeliz. Porque exige canalizar uma energia incomensurável para

manter esta pessoa ligada sempre em seu mundo e o desgaste fatalmente fará o relacionamento chegar ao fim. Mais cedo ou mais tarde vai acontecer. Ninguém quer ser preso. Principalmente num relacionamento.
   Em Junho do ano passado, em meio ao tratamento de químio de Bere, aqui no face, eu escrevi minha famosa 'sorte do dia' especialmente para ela. Era o dia dos namorados, uma data que sempre envolve carinho e atenção para com quem amamos. Nós comemorávamos o dia dos namorados como se fosse um aniversário. Prezávamos nosso namoro. Escrevi o seguinte, junto com a foto do cabeçalho deste artigo:

Prg Pio Rambo Gravações
12 de junho de 2013 

Sorte do dia: Poder comemorar há 33 anos o dia dos namorados com a mesma pessoa. Não tem preço!!!!

   Quando ela viu publicado, encheu os olhos de água, veio me abraçar e disse: "Mesmo estando pela metade?" - Eu, tentando não me emocionar também, já que ela estava num quadro de saúde delicado, respondi: "Ainda bem que sobrou a melhor metade. E esta não tem preço!" - Nos abraçamos e choramos abraçados. Uma troca de energia e carinho impagável, proporcionada simplesmente por eu ter escrito aquilo numa rede social. Depois de alguns minutos, ela me encarou, segurou meu rosto em suas mãos, secou minhas lágrimas com seus polegares e disse: "Bobo! Já somos meio desde que casamos. Qual é a metade a que estás te referindo? A que deixei com meus pais, ou a que trouxe para nossa união? ...pssssit, não responda! Sei que é minha metade tua. E eu vou caprichar para continuar sendo esta metade plena, de vida, só tua!" Eu a apertei em meus braços, encarei, e respondi: "Tu és tudo o todo, e o sempre meu. Então não tem metade. Para de falar assim! Vamos lutar juntos para te deixar inteira de novo. Se for preciso, eu tomo a frente. Nem que metade de mim fique no caminho." - Bere, tremendo o queixo, mas sem desviar os olhos de mim, completou: "Prometo que vou ser boa parceira nesta luta. Vou lutar contigo. Até o fim. Prometo!" - Nos abraçamos e, logo depois a florista trouxe um lindo buquê de rosas que eu havia encomendado para ela. E mais uma vez ela chorou. Desta vez de uma alegre emoção.