sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Hora da Faxina: Afinidades



Afinidades

   É tão interessante a maneira como acontecem afinidades com certas pessoas em nossas vidas. Simplesmente têm pessoas que nascem para num determinado momento cruzarem nossas vidas, entrarem nelas e começarem a fazer parte, numa totalidade de interesses e complementos indescritíveis. Dali surgem amizades que vão para toda a vida, surgem parcerias que fazem ambos crescer, surgem somas, complementos, que fazem surgir coisas ou sabores novos, maravilhosos, fazendo também com que os dois evoluam. Surgem também relacionamentos amorosos, os quais vão durar uma vida inteira.
   É incrível este sentimento. E ele não oferece escolha. Ele acontece. De um dia para o outro encontramos pessoas em nossos caminhos que vão ser estes elementos indescritíveis, pois nos fazem bem, a gente gosta da companhia e tem sempre o desejo em fazer esta pessoa ir bem, seguir em frente para melhores oportunidades e resultados. Pessoas assim também são importantes para nós, pois se nós temos este desejo, eles ou elas também tem este desejo em relação a nós.
   Do mesmo jeito, entram pessoas em nossas vidas com quem não conseguimos ter empatia. Sua presença nos faz mal, a gente não vê a hora de se afastar destas pessoas. Mesmo que não tenham feito nada, não tenham nada de errado, elas nos fazem ter sentimentos de rejeição. As pessoas geram desconforto, a gente até não trata bem, porque não consegue alimentar um bem-estar junto com estas pessoas, ou desenvolver uma simpatia nesse contato.
   E a vida é muito pródiga, pois nos apresenta muito mais pessoas por quem desenvolvemos simpatia do que pessoas que nos causam desconforto nos contatos. A verdade é que nossas atitudes geram aproximações. Boas ou ruins. E mesmo a gente não querendo, fica sempre envolvido com estes contatos. Porém, o mais importante é a gente poder somar alguém em nossa vida e a partir dali, criar um vínculo único de amizade, que vai se solidificando e criando uma estrutura que faça ambos crescerem. E é maravilhoso ter um sentimento de amizade profundo por algumas pessoas mais próximas a nós, afinal, nossa vida é construída em cima de altos e baixos, onde neste meio, as amizades são o cimento que fazem esta estrutura não abalar. 
   Tenhamos muita afinidade com muitas pessoas! Faz bem e nos mantém firmes quando mais precisarmos de amparo.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

A Hora da Faxina: Envelhecer com Qualidade



 Envelhecer com Qualidade

   Chega um momento na vida das pessoas onde nem tudo é mais tão dinâmico e fácil como foi há pouco tempo. E não existe uma idade certa para se dizer quando a pessoa está velha. Depende muito de cada um. O fato é que dificilmente esta idade não é acompanhada de óculos, alguns pivôs e remédios diários. 
   Estas são formas físicas de dizer que o organismo não é mais o mesmo e que ele precisa destes acessórios. Algumas pessoas, além disso ainda precisam de outros recursos para andar para dentro da velhice. Mas o que todos almejam mesmo, é envelhecer com qualidade. Caminhar no mundo dos netinhos com qualidade para compartilhar suas vivências é muito gratificante, pois o próprio andamento deste modo de viver faz o idoso se sentir menos velho.
   Mas, como se envelhece com qualidade?
   Parece uma pergunta difícil de responder. Mas foi justamente um amigo meu, na altura de seus 86 anos de lucidez, sabedoria e qualidade de velhice quem me deu esta resposta em apenas uma frase:
   - "Só realmente envelhece quem tem medo de acompanhar a tecnologia!"
   Ele é o tipo moderninho, conhece até whatsapp. Pra ele pendrive é um velho conhecido seu, e marcar passagem aérea para Portugal onde moram suas filhas via internet é brincadeira de criança. Ainda dirige seu carro com o cuidado de um garoto de dezoito anos que a recém começou a dirigir e seu conhecimento sobre história e geografia universal é invejável.
   Mas a frase que ele me disse ficou me martelando na mente. Comecei a singrar meus amigos velhos e seus acertos ou desacertos com a tecnologia e eis que descobri a grande verdade na frase profética deste meu amigo. Afinal, relembrando o comportamento das pessoas eu consegui formar um mapa de velhos acabados e velhos entusiastas. O que os diferenciava? Justamente a tecnologia. Aqueles que viam o computador como um bicho papão e ainda usavam máquina fotográfica de filme, justamente eram os que tomavam mais medicamentos e mais frequentavam médicos. 
   Por outro lado, amigos e amigas que tinham seu telefone de tela sensível, que levavam seu tablet junto nas viagens às termas e que compravam vinhos finos via internet, justamente eram pessoas saudáveis, com ânimo nos altos de sua velhice e que tinham gosto em compartilhar suas histórias com quem perguntasse ou quisesse ouvir. E mais: faziam hidroginástica, pilates, e não abriam mão de um copo de vinho ou uma lata de cerveja por dia. Misteriosamente estes velhos não contraem Parkinson ou Alzheimer, tem memória privilegiada e dão prazer em sua companhia porque não vivem se queixando de problemas de saúde. Ninguém gosta de ouvir só queixas.
   Eu já sei o que fazer para continuar caminhando em minha vida com qualidade: ser curioso e tentar sempre aprender com as novidades que vão surgindo. Comprovei a lição do meu amigo e agora também almejo chegar aos 86, se tiver esta graça e privilégio, dando aula de conhecimento e mostrando saúde e vitalidade. Não tenho medo da tecnologia e vou ter sempre as novidades em meu uso diário. 
   E você? Já descartou sua máquina fotográfica de filme? Tá na hora. O tempo não perdoa.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

A Hora da Faxina - O Suicida Covarde





O Suicida Covarde

Conheci quando criança um cara, que tinha crises psicóticas e nestas crises, tinha sentimentos suicidas. Mas era um suicida patético porque não tinha coragem em se matar. Somente arranjava o cenário completo para amedrontar todos ao seu redor, mas o desfecho de sua intenção nunca acontecia. Eu era criança na época, mas convivi com estes seus momentos porque ele era casado com uma parente nossa e portanto, era amigo do meu pai. E meu pai sempre dizia que ele nunca iria se matar porque era muito covarde para isso.
Uma destas cenas que ele protagonizou foi em Harmonia, lugar onde eu morava e por onde também passa o rio Caí. Só que lá o rio faz uma curva de quarenta e cinco graus, bem dizer um cotovelo, barrado por um paredão de basalto de mais de quarenta metros de altura. E ali, nesta curva as águas são profundas e várias pessoas já morreram afogadas presas entre os galhos das árvores que foram se avolumando em seu poço. E justamente em cima daquele paredão certo dia o José (nome fictício) foi fazer acampamento para uma hora se decidir jogar lá de cima para a morte. Ficou uma semana inteira com sua psicose corroendo seus miolos, criando coragem para se jogar lá de cima. Parentes dele levavam comida e água para ele lá, já que se negava a sair dali. E toda vez em que alguém chegava lá com ele, se posicionava perigosamente na beirada do perau ameaçando se jogar. Mas sem coragem, não se jogou. Depois daquela semana, com ele dormindo no relento, sem banho, sujo fedendo, chamaram meu pai para tentar dissuadi-lo da ideia de se jogar lá de cima.
E meu pai conseguiu mudar a ideia dele, voltando junto com ele até nossa casa, tomando um banho e pegando roupas emprestadas do pai para se vestir. No dia seguinte foi embora e voltou aqui pro Caí, onde ele morava. Durante meio ano, era verão, ele ficou normal, seguindo sua vida. 
Eis que no inverno, friozão, ele veio visitar meu pai. Como sempre passou a noite conosco, com sua tosse asmática e seus roncos leônicos, acordando a todos nós, crianças, temendo que ele viesse nos amedrontar. No dia seguinte levantou, tomou café e pegou o ônibus para voltar ao Caí. Na época a travessia era feita na barca que havia. O ônibus desembarcava os passageiros na barranca do rio e seguia viagem até Montenegro. José estava entre eles. Quando todos estavam sobre a barca ela foi puxada para a outra margem no braço de 4 homens que puxavam com paus que tinham um corte, encaixando num cabo de aço que atravessava o rio entre margens e assim deslocavam a barca. 
Chegando no meio do trajeto, rio de águas sujas, havia chovido, José tirou primeiro seu sobretudo, dobrou e colocou no piso da barca. Depois tirou seu chapéu de feltro e deitou de cabeça pra cima sobre o sobretudo. Tirou o óculos fundo de garrafa, era míope, dobrou e colocou dentro do chapéu. Então, olhando para a torre da igreja matriz, abanou e gritou:
- Adeus meu São Sebastião do Caí!
E, tchibum, se atirou nas águas barrentas afundando que nem um saco de batatas. Um barqueiro vendo isto, largou a madeira e se atirou atrás do homem naquelas águas geladas, trazendo-o de volta para a barca. Os dois tiritando de frio, o barqueiro deu um tablefe na cara do José e gritou irado:
- Da próxima vez em que se jogar não o salvo mais, vou deixá-lo se afogar.
E José, choroso reclamou:
- Mas era isso que eu queria!
E o barqueiro berrou de volta:
- Então faz isso um dia sozinho e não numa barca cheia de gente!

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Pequenas Mentiras, Meias Verdades - Os Chifres



Os Chifres

Ser infiel no casamento é algo que acontece muito mais do que a maioria das pessoas imagina. Antigamente era algo inerente aos homens casados. Eles traíam as mulheres, as vezes até diante de seus olhos, e para criarem os filhos no sistema de harmonia, toleravam e viviam sob a traição sem dizerem nada. Eram sempre mulheres tristes, as quais muitas vezes adoeciam fazendo seus maridos gastarem bastante com médicos em sua recuperação.
Mas hoje em dia as coisas não são mais bem assim. Existem certas mulheres que traem muito seus maridos. Muitos homens vivem a vida inteira e não têm noção de que a mulher está fogueteando por aí. O marido está no emprego, se mata trabalhando, e a mulher deita em sua própria cama com outros homens.
Traições ocorrem hoje em dia mais ou menos do mesmo jeito na cidade como no interior. Talvez até as mulheres do interior estejam fogueteando mais que as da cidade.
Então aconteceu numa cidadezinha perto daqui. Havia um casal já casado há vários anos, tinham 4 filhos grandes criados entre quinze e vinte anos. A mulher tinha quarenta anos de idade. Mas, se passava com todos os homens. E seu marido já sabia disso há tempo, mas por ser muito apaixonado por ela, achava que não conseguiria viver sem ela. Os anos e os dias andaram, a mulher traindo e ele aceitando.
Porém, chegou o dia em que sua esposa o traiu com o melhor amigo. Isso foi demais para ele. Ficou numa dor muito profunda pelo ato em si. Ele ficou sem rumo.
Então ele foi até a casa do cunhado para se queixar. Talvez ele pudesse ajudá-lo já que estava sendo traído pela sua irmã.
Quando ele chegou na casa do cunhado, o mesmo estava lá fora parado na área. O coitado do traído, chorão, chorava como uma criança. Então o cunhado perguntou:
- Ué Willi, tá parecendo um miserável! Vem, vamos entrar em casa, faço uma água com açúcar pra você, então me conta o que está acontecendo.
- Não posso entrar Lando! - Respondeu o choroso Willi. - Meus chifres estão tão grandes que não consigo atravessar a porta. Me trás a água com açúcar aqui fora mesmo.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A Hora da Faxina - A Mala





 A Mala

   Pois é, como dizia Carlos, um amigo meu, a respeito deste apetrecho tão necessário para viajar: 
   - Há malas que vem para o bem. A gente sente sua falta verdadeiramente quando é extraviada na conexão e você chega no destino somente com a cueca do corpo. Então se dá conta, quando vai no banheiro, que ela está com um freio tão grande que parece que parou de repente, quando o pum estava a cem por hora.
   Eu achei muito engraçado, apesar do momento aflitivo de meu amigo. Então perguntei:
   - E como resolveu o problema? Recebeu a mala de volta?
   - O jeito foi ir à loja e comprar ao menos três cuecas novas já que a companhia aérea deixou informado no hotel que em três dias teria minha mala de volta.
   - Foi o que fez? - Perguntei. Carlos respondeu:
   - Não no mesmo dia. Já era passado das 22 horas quando cheguei no hotel, não tinha mais loja aberta. As lojas lá na cidade fecham às 22 horas. O jeito foi tomar um banho bem demorado, gastar meio sabonete daqueles amostra de hotel na bunda para assear e aliviar o assado que deu e vestir só o pijama. Gastei o resto do sabonetinho tentando lavar para 'destravar' a cueca mas ficou aquela linha ali, me acusando de mal asseado. - E arremedou: - Eu juro que nunca mais compro cueca branca. Daqui pra frente todas vão ser marrons!
   Tive que rir alto desta vez. Carlos sempre foi assim: direto, sem papas na língua. E enquanto eu ria ele continuou:
   - Vai rindo! Um dia vão também extraviar tua mala no aeroporto. Aí eu vou rolar em cima do teu azar! 
   - Desculpe Carlos, mas do jeito como contas as coisas é muito engraçado. Fico imaginando a cena hahaha. 
   Ele continuou:
   - Por falta de cueca ainda passei uma noite horrível. Acordava toda hora, sentindo como meu pintinho estivesse dormindo no relento, sem casinha, desacomodado.
   Eu comecei a rir desenfreadamente. Carlos era muito engraçado. E ele, olhando sério para mim, esperou eu parar de rir para continuar falando:
   - Faz um dia a experiência você também, para ver como é estranho dormir só de pijama, sem cueca!
   Quando me acalmei, estava com a barriga doendo de tanto rir, perguntei:
   - Então, foi no dia seguinte comprar cuecas?
   - Sim, disse ele. E uma muda de roupas vagabundinha para não gastar muito. Não podia aparecer todo dia no hall do hotel com a mesma roupa né? Os hóspedes não sabiam que haviam extraviado a minha mala e eu não queria começar a dar explicações por estar com a mesma roupa todo o dia.
   - Verdade! - Disse eu. - E encontrou roupa baratinha?
   - Sim! Mas cuecas baratas só encontrei vermelhas. Fazer o que? O jeito foi exagerar na salada de beterraba para se caso ocorresse novo acidente não ficar tão na vista.
   Novamente tive que rir. E Carlos continuou sério. Eu já com pena dele, mas ainda rindo disse:
   - Bom, pelo menos no terceiro dia da viagem recebeste tua mala de volta?
   - Recebi sim! - Respondeu. E eu, debochando disse:
   - Deve ter sido um encontro e tanto, afinal, tu e a mala novamente se encontraram, depois de uma separação forçada.
   Ele respondeu acabrunhado:
   - Mas foi a mala errada. Só tinha 5 vestidos, um pacote de absorventes, dez calcinhas e um par de tênis com as meias colocadas dentro deles. Fui olhar na etiqueta o nome e lá estava escrito: Carla S. Confundiram comigo. Então eu fiquei imaginando o que esta tal de Carla S deve ter pensado de mim ao abrir minha mala e ver que além de minha roupa estava lá junto meu ursinho de pelúcia.
   
   
    

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

A Hora da Faxina - Fila do Supermercado



Fila do Supermercado

   Quando eu vou ao supermercado fazer compras procuro sempre ir sem pressa por dois motivos: primeiro, porque posso encontrar pessoas conhecidas e sempre rola aquele papo descontraído. Então, para ser descontraído tem que ser sem pressa, afinal, o gostoso justamente está na forma de trocar palavras falando diversos assuntos e assim ficar novamente a par da vida destes conhecidos, amigos distantes ou pais de amigos dos filhos.
   O outro motivo é justamente para enfrentar uma fila do caixa sem estresse. Eu adoro ficar na fila do caixa. É muito engraçado e ao mesmo tempo interessante. De primeira dá para se traçar o perfil psicológico dos enfileirados: gente rindo e conversando com a pessoa do lado sem pressa, tipo eu, gente séria, ensimesmada, talvez calculando de cabeça se o dinheiro vai alcançar pagar o que compraram. Afinal, ninguém quer pagar o mico de deixar mercadorias sem levar por falta de dinheiro para bancar o total da compra. E tem também aquelas pessoas que ficam balançando o corpo num vai-vem, numa perna só, bufando pela lentidão do atendimento. Eu me delicio com estas pessoas. Quando pego uma assim atrás de mim, ainda passo as mercadorias mais devagar, fico falando e rindo com a menina do caixa, só para a pessoa nervosinha e impaciente aprender a saber esperar sua vez na boa, na paz.
   Ali a gente também consegue traçar uma mapa do que as pessoas consomem. Sem intromissão em sua vida, as mercadorias vão sendo passadas e a gente vê explicitamente exposto se sua alimentação é saudável, ou se não é. Na fila do caixa se vê também o quanto de produtos naturais ou artificiais a pessoa leva. É muito interessante isto, pois, as mesmas pessoas levam coisas sempre girando os mesmos produtos. E tem aquela geração natureba, magrinhas e descoradas, passando um peitinho de frango depelado, um pé de alface, uma cenoura e uma berinjela. Em contrapartida, na mesma fila, uma pessoa além do peso, com torresmo, costela gorda, massa, uma coca e dois sachês de creme de leite. Junto a tudo isto, um vidro de pepino curtido e um sachê de maionese. Mais dois quilos de açúcar e uma cuca.
   Eu penso que nem um nem outro está certo, pois sempre fui da ideia que se deve comer de tudo, mas não tudo. Saber equilibrar o que se consome é o segredo para uma boa alimentação. E quem disser que batata frita é ruim só porque dizem que faz mal, está mentindo. Se formos olhar bem, tudo o que é muito gostoso, dizem que faz mal. Putz!
   Mas voltando à fila do caixa no supermercado, hoje comprei um monte de ingredientes para fazer uma sopa. Junto com as verduras, um pacote de sopa destes pronto. Então, uma senhora que estava atrás de mim na fila comentou:
   - Nossa, o senhor tem tantas verduras gostosas pra fazer uma sopa, tá levando até alho poró e vai misturar um pacotinho desta química artificial para estragar ela.
   Eu comecei a rir e respondi:
   - Pois é, minha amiga, a gente de vez em quando tem que injetar estes veneninhos artificiais no organismo para ele se manter acostumado à química que andam acrescentando nos alimentos. Mas, sinceramente, veneno por veneno, acho que o moranguinho que a senhora tem em seu carrinho tem em agrotóxicos muito mais químicos do que minha sopa de pacotinho.
   Ela calou comigo e começou a ralhar com o filhinho que estava com ela. É como se diz naquela expressão: "Quem diz o que quer, ouve o que não quer."
   

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Pequenas Mentiras, Meias Verdades: Histórias do Padre Feltz Número 4



Histórias do Padre Feltz número 4

   Bêbados e padres são dois elementos que quando a gente mistura, a bagunça está feita.
   Então, vejamos porque isto acontece. Eu acredito que é porque os bêbados não têm medida em suas palavras e assim, muitas vezes os padres acabam ouvindo o que jamais ouviriam.
   Um  belo dia, quarta de manhã a igreja estava aberta. Tudo vazio, silencioso e calmo. De repente, vem tropeçando para dentro da igreja um bêbado, vai cambaleando até o início do corredor, defronte do altar. Ele se ajoelha torto no degrau e começa com batidas altas do sinal da cruz na testa, depois no peito:
   - Pai, ...filho, ...iiic, ops, ...iiic, espírito santo, aaaaa, amém!
   Durante o sinal da cruz seu chapéu rolou para o lado. Ele tateou em sua direção, o apanhou com dificuldades enquanto continuou a rezar:
   - Meu Deus do céu, como tudo está bamboleante! ...Mas eu, iic, estou aqui para me ....desculpar porque... prometi ...iic... que não iria beber esta semana! 
   Tudo quieto. Só na sacristia se ouvia um pouco de barulho de alguém que, talvez, estivesse  colocando tudo em ordem. O bêbado se apóia com a mão direita e continua a falar:
   - Então, Deus! ...Estou esperando! ...Iiic, vamos! Me diz algo!
   Tudo quieto. Até na sacristia tudo silenciou. O bêbado continuou falando:
   - Então, então, então! ...ic, assim é difícil de lidar contigo! ...Eu cometo um erro e tu não dizes nada a respeito? ...diga algo!
   Tudo quieto. Padre Feltz que se encontrava na sacristia colocando tudo no lugar, não aguentou as lamúrias do bêbado. Então ele saiu para a igreja e disse para o Dilo, o bêbado:
   - Dilo, prezado católico: Deus está repousando agora para dar sua força e sua bênção no final de semana. Não adianta você gritar, Deus dorme profundamente e não vai acordar.
   Dilo respondeu:
   - Poxa! ...iiic, eu achei que Deus estava 24 horas nos protegendo!
   Indignado, ele levantou e foi embora cambaleando.
   ***********
   Fim de semana. Domingo de manhã na missa, o padre Feltz já estava iniciando quando o Dilo entrou na igreja cambaleando. Ele disse "bom dia" a todas as pessoas e foi se escorar num pilar no canto, nos fundos.
   Durante o sermão, porque o padre Feltz estava muito magoado com as coisas que andavam sendo roubadas na comunidade, disse:
   - Prezados! Nossa cidade é um belo lugar, repleto de gente saudável, boa comida, bom ar e boa vontade. Mas, devagar estamos tendo algo para criticar.
   Dilo ficou do seu canto observando tudo e ouvindo o padre com interesse. Padre Feltz continuou:
   - Eu só estou profundamente magoado com os malandros que roubam as pessoas e as traem.    Também estou certo de que aqui, nesta igreja, nenhum rapaz deste tipo está presente. Vamos fazer a experiência: se alguém daqui já roubou alguma vez, levante, fique de pé!
   Todos ficaram sentados. O Dilo olhou ao seu redor dali onde estava parado, olhou para o padere, então ele disse:
   - Poxa, padre! Sobramos só nós dois!

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

11 Meses sem Bere. Viúvo.



 11 Meses sem Bere. Viúvo.
   
   Ontem fez exatamente um ano em que dancei a última vez com Bere. Na realidade, não dançamos. Apenas ensaiamos alguns passos naquele baile de forró no litoral da Bahia. Exatamente um mês depois ela partiu. Teve chance de se despedir e num sussuro quase inaudível em suas últimas palavras dizer: "Eu te amo."
   Mas hoje relembro o que aconteceu naquele anoitecer, antes de irmos para o forró, onde Bere me surpreendeu mais uma vez, das tantas em nossa vida em comum, com a conversa que tivemos, e que transcrevo do livro que estou escrevendo:
   "Outro dia, de tardezinha, tomamos banho e estávamos nos aprontando para sair com a turma até o centro de Itacaré, fazer comprinhas. Ela, já de banho tomado, a uma certa altura, sentou na cama, e começou a me fitar enquanto me arrumava. Vi ela pelo espelho a minha frente, e fitando ela assim, pelo espelho, disse:
   - Querida, ainda não estás pronta! Termina de te arrumar, não vamos atrasar a turma. 
   Então ela, sem prestar atenção no que eu disse, falou séria:
   - Estou sendo um fardo na tua vida, né?
   Virei para ela, a encarei e disse:
   - Eeeee, que é isto? Já esqueceu? Na alegria, na tristeza, na saúde, na doença... Não foi isto que prometemos?
   Devagar seus olhos foram criando lágrimas, e Bere me fitou com um olhar todo aguado, tão carinhoso que fixou em mim para sempre, não consigo desfazer. E enquanto me encarava, com muita profundidade, doce, queixo tremendo, disse convicta:
   - Amor, se tu quiseres, quando voltarmos desta viagem, me deixa, separa. Arruma outra! Tô vendo que tu estás sofrendo comigo, com esta situação e não quero isto. Não é este o teu jeito de ser. Se é para eu te deixar infeliz, me deixa, tô no fim mesmo! Vai vive, porque o que me faz sofrer mais ainda é te ver triste por minha causa. Eu não quero isto pra ti. Segue teu caminho! ...Sem mim...
   Desatou a chorar largado. Rolou um clima muito tenso, porque ao mesmo tempo em que fiquei muito irritado com a besteira que ela falou, senti a nobreza deste serzinho, que sempre deu muito mais amor do que quis em troca, em mais uma demonstração de amor doado, incondicional, abrindo mão do que de mais precioso tinha para não fazer sofrer. Então, peguei um lenço de papel e fui, sentei ao seu lado, a abracei, sequei suas lágrimas com o lenço, a encarei e disse baixinho carinhosamente enquanto segurava seu rosto com as duas mãos a  encarando no fundo do seu lindo negro olhar:
   - Jamais, jamais, jamais... ouviu? ...nunca, jamais fale de novo uma besteira destas! Nunca, ouviu? Se for para sofrer contigo, nem que isto me deixe muito infeliz, vai ser a teu lado que quero ficar, sempre, todos os dias, todos os momentos, custe o que custar. Meu amor por ti é muito maior do que este 'fardo' bobo do que estás falando.
   E ela, enquanto eu falava voltou a verter lágrimas. Entre soluços, Bere me disse estas palavras que também jamais vou esquecer porque marcaram demais:
   - Eu sabia que responderias isto. Só que eu "precisava ouvir" isto de ti! Nosso amor não permite ser diferente.
   Nos abraçamos, beijamos e ela foi lavar o rosto, tirar o choro, terminou de se arrumar e saímos." 

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Hora da Faxina - Administrar a Grana



 Administrar a Grana

   Certamente você conhece ao menos uma pessoa que volta e meia quebra por não saber administrar os gastos com o que ganha. Hoje em dia as facilidades de compras a prazo fazem muitas pessoas gastarem mais do que ganham. Na hora de passar o número do cartão de crédito tudo é festa, mas quando vem a fatura vêem que tem mais outras contas em andamento, e também estão cobrando aquele churrasco que fizeram no fim do mês passado quando receberam visita e a grana do salário já tinha ido. Restou o cartão para não passar vergonha frente à visita. Se tivesse feito uma humilde galinhada, tenho certeza que ninguém reclamaria e teria saído a décima parte do que agora vem na fatura cobrando aquele churrasco.
   Administrar a grana que recebe é antes de mais nada algo complexo. Fora a matemática, a pessoa tem que saber como contar com um plano B quando os imprevistos surgem. E eles sempre surgem, quando menos espera. Não quero dar aqui uma aula de economia, mas sim, mostrar uma maneira de fazer nossos filhos aprenderem a administrar seu dinheiro. 
   Em minha família adotamos dar mesada para os filhos a partir dos 5 anos de idade, quando eles já tem uma certa noção do valor do dinheiro. Todos os sábados cada um ganhava um valor pequeno que era deles, e que faziam com este dinheiro o que quisesse, a gente não opinava. Mas a mesada, na realidade, era o pagamento para alguma atividade que eles tivessem feito. Como: trocar a água do cachorro, levar o lixo no sexto na frente de casa, varrer seu quarto, arrumar sua cama, secar a louça, fazer companhia para a vó e o vô, não reclamar na hora de fazer o tema ou deixar de jogar video game, estas coisinhas pequenas das crianças onde elas muitas vezes relutam e não querem ceder.
   Mas tinha um detalhe: mesmo eles tendo a liberdade de fazer com seu dinheirinho o que quisessem, quando a gente ia de férias para a praia no verão, os picolés e sorvetes comprados na orla, tinham que ser bancado por eles. Eles tinham que administrar seu dinheiro, para que "sobrasse o suficiente" para ao menos dez picolés, um por dia. E esta fórmula funcionou maravilhosamente. Eles aprenderam a poupar. Claro, não queriam ficar sem picolés na beira da praia. Na medida que foram crescendo, por gostarem muito de montar Lego, começaram a poupar para comprar estes kits. Tinha um folder com diversos modelos e preços, e eles traçavam a meta para que perto do dia das crianças tivessem o dinheiro suficiente para comprar o kit que queriam com a poupança da mesada. Então a gente ia a São Leopoldo, tinha uma loja enorme de produtos Lego, e eles compravam seu kit. Sempre era uma festa para eles, e eles viam que se acumulassem seu dinheirinho podiam tirar resultados, muito diferente de pegar aquele pingadinho do sábado e correr no supermercado para torrar tudo em porcarias.
   Hoje estão crescidos, cada um tem seu cartão de crédito. Nunca precisei completar alguma fatura do cartão deles, ou emprestar dinheiro para despesas pessoais, ou para ir na balada. Simplesmente pelo fato de terem aprendido que mesmo recebendo pouco por semana, dava para traçar metas e colher o resultado disso.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Hora da Faxina - Celulares



 O Celular

   O celular chegou e mudou completamente o conceito de vida, conexão, praticidade e também criou uma forma de alienação na humanidade. Mas eu não quero falar sobre o lado filosófico da questão, do quanto está alienando a juventude, deixando os jovens viciados, dependentes. Quero falar sobre a história desta maquininha interessante que começou grande e pesada. Também não vou contar a história dele. Isto você acha na Wikipédia. Eu vou falar de minha percepção sobre esta joinha.
   Quando ele surgiu em nosso meio lá pela metade dos anos 90, poucas pessoas tinham condições de mantê-lo. Pois só existia o de linha e era caríssimo para comprar a linha e pagar o preço da mensalidade. Não saberia dizer em números de hoje quanto custava.
   No final dos anos 90 tive meu primeiro contato com o celular. Chegou um cliente com o aparelho preso ao cinto. Era pesadíssimo, quase um quilo, e chegava a pender o cinto devido ao peso. Seus recursos? Fazia e recebia ligações. E isto já era uma grande coisa, pois conseguir receber ou fazer uma ligação não era tão fácil assim. Quando ele tocava, começavam a puxar de dentro uma antena daquelas cromadas de rádio, que chegava a uns 2 metros de comprimento. E para limpar a recepção, tinha que ser atendido ou ligado do lado de fora, na rua, para não ter interferência. 
   Eram cenas inusitadas, hilárias, que hoje em dia ainda, ao relembrar este início do celular começo a rir, lembrando daqueles tijolões que descarregavam a bateria pesada que tinham em pouco mais de meio dia. Mas a teimosia humana é constante e os aparelhos foram evoluindo, diminuindo de tamanho e de peso, ganhando eficiência e agregando utilidades, deixando-os como ferramentas quase imprescindíveis do nosso dia-a-dia. Se não, vejamos:
   Os celulares desbancaram os relógios de pulso. Poucas pessoas ainda usam, já que têm a hora no aparelhinho. Inclusive eu também dispensei. Eles também estão aos poucos dispensando a câmera fotográfica, tomando o seu lugar. Afinal, a qualidade de fotos que muitos celulares fazem, supera muitas máquinas digitais que existem por aí. E vem com tudo agregado, até flash. Também engavetaram a famosa calculadora de bolso, que quando surgiu nos idos dos anos 70, custava o preço de um celular completo de hoje em dia. O celular também matou o walkman - aparelho com rádio e cd player portátil para passeio. Está tomando o lugar do GPS, do controle remoto, do leitor de diversos códigos, e no futuro será tudo centralizado nele. Inclusive o alarme do carro e da casa. 
   Sobre o uso do celular para controle remoto, a juventude descobriu uma brincadeira nova. Trata-se dos aparelhos de som que estão expostos nas vitrines das lojas e que não são desligados da tomada durante a noite. Eles baixam o código do controle remoto daquele aparelho na net, instalam no celular e de madrugada ligam o aparelho exposto na vitrine, dando todo o volume e infernizando a vizinhança. Eu até acho graça da criatividade, mas deve dar um susto sem tamanho em quem mora perto da loja, acordar às 3 da manhã com sonzeira a todo o volume e descobrir que vem de um aparelho exposto na vitrine da loja do lado de sua casa. Muitas vezes são filiais de matrizes distantes e até achar o responsável para desligar o aparelho, já está amanhecendo. Bendita tecnologia!!!!