sábado, 23 de novembro de 2013

60 Dias sem Bere, Viúvo




 60 dias sem Bere, viúvo. 

   Hoje ando me sentindo sensível. Amanhã completarão dois meses em que fiquei viúvo, e quanto mais o tempo passa, mais eu sinto a ausência dela, nas coisinhas dela no seu dia a dia. Não queria que fosse assim. A saudade da ausência da Bere deveria estar diminuindo. Mas não está. Quando vou fazer alguma coisa na casa, ouço a voz da Bere conversando comigo, dando suas dicas, fazendo estas mesmas coisas que eu faço, que ela faria com tanto amor e alegria. Com dedicação. Como é sábado, juntei as toalhas de banho e de rosto de todos os banheiros para lavar, como ela sempre fazia. Toalhas de três banheiros, só elas na máquina. Adotei a rotina dela. E cada toalha, ao pegar ela analisava. Via se não estava muito encardida para aplicar algum produto antes de por na máquina de lavar. E novamente ensinava: "Deixar no sol até estarem quase secas, depois dez minutos na secadora, para afofar."
   Ontem foi o dia de lavar nossas roupas de cama. Tudo. Até o travesseiro dela eu venho cobrindo com uma fronha, e mesmo sem usar, troco e lavo toda a semana. E quando a saudade aperta durmo abraçado nele. E enquanto arrumo a cama, relembro a dica que sua experiência me ensinou: "Coloca o lençol, encaixa os elásticos nos quatro cantos do colchão, estica. Depois pega o travesseiro e puxa ele do meio da cama para as bordas para tirar todas as dobrinhas." Refaço seu gesto. Bere não gostava de fronhas,lençol e colcha mal colocados. Dizia que se dormia melhor com tudo liso, ajeitadinho, e que colcha desalinhada mostrava o relaxamento de uma dona de casa. E amanhã, lavar nossa roupa. E, como Bere me ensinou: "Roupa que solta tinta lava a mão. E extende ao avesso no sol para não desbotar. Já a roupa branca, seca à sombra para não amarelar." Isto tudo ouço no meu interior, como se ela estivesse do meu lado me orientando.
   Minha sensibilidade está diferente. Já não tenho mais tantos momentos de emoção, de choro. Mas eles ainda acontecem. Mesmo nem tantos, ainda frequentes. E quando acontecem, choro muito. A dor da ausência das coisinhas da rotina de Bere estão me abalando, e como já disse, é como um tufão que assola, passa, faz seus estragos e vai embora. Ainda ando acordando diversas vezes na semana, exatamente às 6:15, quando o despertador dela a acordava. E ele está desligado. E no despertar, no inconsciente ouço o chuveiro como se ela estivesse lá, tomando seu banho, se preparando para mais um dia de mil atividades. Seu uniforme do trabalho dobradinho na borda da banheira: embaixo, a calça azul marinho e em cima a camisa branca, com o bordado azul do nome do escritório, de uma alvura sem igual. Em cima da camisa, combinando, a lingerie, que vestiria primeiro. Tudo esperando ela no amanhecer, ao lado de cremes para as pernas, o corpo e a face. E mil coisas espalhadas sobre o mármore ao redor da pia, na ordem certinha da sequência em que ia se arrumar: desodorante, perfume suave - todo dia um diferente - brincos, correntinha, relógio, bracelete e anéis. Anéis com pedras grandes. Adorava. Um pouco mais para trás, uma tiara e um pote com prendedores de cabelo, caso não lavasse o cabelo e ele se mostrasse rebelde.  No outro lado da pia, escova de dentes já com o creme dental colocado,lápis para os olhos, rímel e batom. Ainda o óculos velho para conferir o final da produção. O óculos novo já estava na bolsa, preparada para levar ao trabalho. Não podia esquecê-lo de jeito nenhum. Tantas e tantas vezes vi esta cena, pois Bere já deixava tudo preparado de noite, antes de ir dormir. Assim de manhã ganharia tempo. Uma dedicação de estima para consigo, um sagrado tempo para si, para depois apresentar o melhor de si primeiro a mim, ao me acordar, às 7:30. Depois ia ao seu trabalho, linda, poderosa. E ao me chamar, aquele doce aroma de pureza no ar, com a mistura de tantas pitadas de cheiros gostosos e de cuidados para se deixar deslumbrante e agradável, deixa pairando até hoje no quarto a impressão de sua presença. 
   Queria tanto ver ela novamente, ao meu acordar, desistindo de toda a roupa que escolhera na véspera, para num rompante, em frente ao grande espelho do quarto, trocar o soutien que apertou ou que não combinou, ou o uniforme, por outro mais leve, para combinar melhor com o clima. Coisa só de mulher, que homem não compreende. E no fim, a troca. Um espetáculo somente para mim, seu único espectador. Ela sorrir e dizer: "Só troquei pra te provocar!" Vinha, me dava um beijo na testa e cochichava: "Vidinha, à noite vai ter o troco!" Estes fetiches, estas nuances do dia a dia que acendiam e ligavam tanto nossa vida. Nuances por demais especiais, que aconteciam. Ninguém protagonizava. Nossa química fazia acontecer. 
   Assim como foi o caso do sábado passado. Eu, fazendo nossas compras normais no supermercado, instintivamente peguei uma penca de bananas caturra e coloquei no carrinho. Mas logo me lembrei que só Bere gostava de banana caturra. E sempre esmagadinha com açúcar. Eu e os meninos só gostamos de banana catarina. Na hora troquei. Mas ao efetuar a troca, me bateu aquela saudade da ausência da nossa telepatia, onde ela não tinha anotado bananas na lista do mercado, e onde eu via as bananas e comprava pensando nela. E ao chegar em casa, ela, ao vê-las comentar: "Nossa, lembrou das bananas! Eu havia esquecido de anotar. Foi transmissão de pensamento." Esses detalhes dão um vazio saudoso que intensifica na medida que o tempo passa. Tudo eu sinto e refaço em nossa vivência. Como com tantos ensinamentos que ela deixou. Tipo: ontem fui abrir um vidro de pepinos em conserva. Claro, a tendência é girar a tampa e abrir na marra. Mas não consegui. Então me lembrei do seu jeitinho de dominar facilmente este processo. Ela dizia: "Calce com uma faca entre a tampa e o vidro e puxe levemente a tampa pra fora. O ar vai entrar e compensar a pressão. Tsssc! Pronto, agora é só girar a tampa." Nossa! Eu havia lutado mais de dez minutos com o vácuo daquela conserva, e foi tão fácil abrir o vidro depois de lembrar do seu ensinamento.
   Eu amo demais ter amado Bere. No todo. Intensamente. Não existem palavras para descrever este sublime relacionamento. Bere era o tipo de pessoa que entra na vida da gente, se instala, não pede licença, mas que depois de instalada, faz bem. Somente engrandece. Eu cresci muito com sua sabedoria, sua paz, seus encantos e seu modo de ser. Cresci aprendendo a deixar fluir meus sentimentos, que antes, talvez, estivessem travados, ou até, soltos demais. Mas agora, minhas lágrimas rolam soltas, não freio. São lágrimas de uma mistura entre muito de tudo e muito de falta. Eu sinto sua falta. Bere está me faltando. E muito, demais! Não sou egoísta, mas ela me faz falta. Muito, muito. Sua integridade me faz falta. E a falta se intensifica mais e mais quando lembro aquele acontecimento lá em Itacaré na Bahia, onde ela se mostrou o ser mais sublime que se possa amar. Lembro e choro muito. Choro ouvindo nitidamente sua voz me dizendo: "Não quero te ver triste. Arruma outra, tô no fim mesmo!" Nunca ouvi dizer que uma pessoa, em sua sã consciência, tentou abrir mão de quem mais amava por amor, para não ver sofrer. E Bere o fêz. Sabe o que é entregar teu tudo para não ver sofrer? Bere o fêz. Melhor, tentou fazer, mas eu não deixei, a chamei de boba. E prometi lutar ao seu lado até o fim. E o fiz. Não consigo esquecer isto. Gente! Seu amor incondicional passou da conta! E mesmo eu chateado por ela ter feito isto, hoje choro ao relembrar. Porque amar é doar. E ela doou completo. Não pensou. Se doou. Parece que amor incondicional não existe. Mas ela provou que sim, que existe, porque quem ama, liberta seu amor, seja para o que for. Mesmo que seja a sua dor maior. Amor incondicional.
   Já me sinto mais sereno após dois meses sem Bere. Muito longe de estar alegre como eu era antes. Mas feliz. A diferença está na ferida que já cicatrizou. Mas é só uma casquinha. A ferida está aberta embaixo, e basta um escorregãozinho pra abrir tudo de novo.
   Se amor tem nome, com certeza é a soma de Bere e nossa vivência. Porque ela era a soma de um amor infinito, carregado com a luz de sua sobriedade. Como eu fui feliz por ter tido a chance e o privilégio de poder amá-la! E principalmente ter sido amado por ela! Isto me gratifica. Porque poder amá-la me fez fazê-la se completar, se realizar e encher seu mundo de vida, alegria e amor. Mesmo que não durasse uma eternidade, foi muito bom enquanto durou. 33 anos. Bere, obrigado por ter acontecido em minha vida!!! Teu amor incondicional estará sempre em meu coração. Sempre!








"FAMÍLIA É TUDO!"


terça-feira, 19 de novembro de 2013

Tarefa Difícil



Tarefa difícil.

   No último sábado mais uma vez tive que passar por esta difícil tarefa de estar presente em um velório, pois sendo o jovem rapaz, que não era gordo, mas de apelido Gordo, 44 anos, um excelente comunicador voluntário de nossa emissora, e sendo eu o presidente da associação, foi inevitável. Tive que ir. Por menos que quisesse. Já outros velórios haviam acontecido, dois amigos meus partiram, mas não fui. Não fui temendo o que meu interior me apresentaria num cenário tão familiar, pois está tudo tão recente, tão nítido em imagens e carga emocional. Achei que eu não teria mais estrutura em participar, ao menos por enquanto, desde a partida de Bere, onde vinte e quatro horas de muita emoção me acompanharam enquanto parentes, amigos, pessoas solidárias me abraçavam em silêncio para passar um pouco de suas vibrações e sua energia a mim, como se estivessem me mantendo, carregando de força minha tão séria e profunda fragilidade do momento.
   E cada momento daquelas vinte e quatro horas velando, onde estive sempre ao lado de Bere, foi único. Desde o meu olhar para ela, não só uma vez mas várias, com um fiozinho de esperança que, talvez visse Bere se mexer e tudo ter sido um grande engano. Mas Bere não se mexeu. Ainda martela meu inconsciente o desespero de tantas amigas e amigos, que ao vê-la, confirmavam o que não estavam acreditando: Bere realmente havia sido tirada de mim. Para sempre. Apesar de nosso grande amor, nossa simbiose, sem dó, sem direito a apelo, sem chance, ela me foi tomada. Mesmo sendo nossa história a de um grande amor, que pudesse durar ainda por muitos anos. Que pudesse desenvolver ainda mais grandes capítulos de ternura, doação e soma. Mas não. Tudo terminou em vinte e quatro horas. Demorei olhando para as mãos dela, que quis o destino não ficassem em forma de oração, mas de colo. Pensei: "Realmente ela dava colo para todos os problemas até achar suas soluções. Então é justo que fiquem assim." Suas mãos que tanto realizaram em vida, produzindo em seu trabalho, sempre com sua letrinha alegre e disposta, ou no teclado do computador, onde escrevendo com seis dedos era muito mais veloz que eu, escrevendo com os dez dedos. Ela se orgulhava disto, afinal, eu fiz curso de digitação e ela aprendeu no decorrer dos anos em seu serviço, na prática e na velocidade que a profissão exigia. Primeiro, na antiga máquina de escrever, depois no computador.
   Fitando seu rosto, via somente a marca da paz. Semblante de luz, mesmo tendo a sua luz interior a deixado. Aliás, este semblante de paz, que ela em vida tantas vezes me transmitiu e me fazia sentir seguro. Uma forma de ponderar tudo antes de tomar uma atitude, para depois fazer da atitude o resultado especial e certo. Assim Bere era: totalmente focada em atitudes sóbrias, de resultados. Fitando a cena ao redor, pessoas caladas e pensativas, cabisbaixas num semblante de muito pesar. Ainda outras pessoas, conversando animadas e por vezes até dando discretas risadas. Outras pessoas me cuidando com o canto dos olhos para expreitar meus movimentos, que caso fosse sentir algo mais forte, pudessem vir correndo me acudir. Mas não! Passei o tempo todo presente serenamente com a certeza de que tudo foi feito em vida. Nada ficou pra trás. Nada ficou meio feito ou meio certo. Não. Tudo ficou perfeito. E isto de certo modo gera serenidade. Serenidade de consciência, serenidade no abstrato. Mas no físico a cada pouco então, como um recipiente enchendo, transbordava em lágrimas solitárias, sentindo uma solidão sem igual. É. Mesmo estando cercado de inúmeras pessoas, eu sentia uma solidão imensurável. Não existe explicação para a solidão que eu senti durante as vinte e quatro horas em que Bere recebeu suas últimas homenagens. Por isso a importância do abraço no velório. Tantos que recebi, me aproximaram mais das pessoas presentes e me fizeram sentir menos só. Difícil de explicar porque é um sentimento que vem e que se instala à revelia. Não queria estar só neste momento. De jeito nenhum! Precisava desesperadamente de companhia. Minha alma gritava por companhia, algo sufocante, porque me sentia só, impotente. E Bere ali do lado, serena, não estava mais me amparando, nem podia, sua vida se fôra. Naquele momento apenas metade do meu coração pulsava. A outra metade jazia ali do meu lado. Se fôra algumas horas atrás e abria esta lacuna da solidão. Imediatamente. Uma lacuna que custa a ser recuperada e ainda hoje tenho a impressão de que minha força está pela metade.
   Tudo isto passou em minha mente como um filme nítido e conhecido, no velório de sábado. A viúva serena, olhando para seu marido ali, semblante sereno também, e certamente se sentindo muito só. Como eu me sentira com Bere no evento há quase dois meses. Quando a abracei choramos juntos, e uma grande emoção tomou conta de mim porque ali estava sendo apenas o começo de dias muito difíceis para ela. Eu falei enquanto a abraçava: "Amiga, força, Deus dá capacidade para superarmos isto. Eu estou superando, tu também vais conseguir." Mas não consegui mais segurar as lágrimas depois do abraço. Tudo o que vivi naquele dia de Setembro estava correndo velozmente em meu ser alimentando minhas lágrimas, apresentando os detalhes em alta definição, e eu imaginando que ela, a viúva, também estava passando exatamente por isto. Imaginei os dias seguintes, onde toda a existência se mostra vil, trucidando nosso ser com ataques de saudade da ausência das coisinhas de cada dia de nossa cara metade. Fiquei mais uma hora lá, e quando ia embora, a viúva, que estava em pé do lado do marido que ali jazia, veio me dar mais um abraço e ela novamente chorou muito, me levando junto ao choro. Choramos em coro, no mesmo ritmo, sem palavras, cada qual com sua solidão. E neste passar de experiências tão pesarosas ela se esforçou e disse entre soluços: "É, se foi teu amigo e se foi meu marido." foi muito tenso. Senti no peso de suas palavras o quanto a solidão a estava tomando. O Gordo era o amigo que qualquer pessoa amaria ter. Então fico imaginando como ele era com a esposa. Então, tomado com toda esta carga emocional, só consegui engrolar: "Vamos superar nossas perdas, acredite!" Saí de lá sem conseguir conter as lágrimas e fui chorando até em casa.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Momentos


 Momentos

   Recentemente li mais um daqueles textos de palavras rebuscadas para amparar algum momento difícil pelo qual a gente esteja passando. Autor famoso, destes que todos lêem só pela sua assinatura. Li atentamente. Medindo suas palavras e a profundidade para onde quisesse chegar com seu discernimento. Até foi um texto bonito, de motivação bacana, para todos aqueles que do lado de fora de um verdadeiro sentimento de amor, assistem sem notar a angústia escondida de quem realmente amou, amou de verdade, calada num peito sufocado. E o sorriso descontraído é o gemido da angústia da saudade desta ausência gigante que este grande amor está causando. Sofro calado. Nos momentos só meus e por isto pareço o mesmo cara alegre de bem com a vida. Só que de mal com a morte que me arrancou sem dó para suas entranhas a soma deste amor que tanto Bere e eu cultivamos. E este texto, para mim, sei lá, de mim brotou algo que puxou minha mão e me empurrou as palavras no papel, sem eu dominar o que estava escrevendo. Algo assim, surreal. Eu simplesmente, depois de ler o meu texto, senti ter extravasado de dentro de mim aquele explodir de tantas coisas que são escritas por pessoas que talvez nunca tenham vivido 'na carne' o que é realmente perder um grande amor, pela sua partida prematura, quando justamente o relacionamento estava plenamente ajustado, tudo certinho, num ponto em que o próximo passo teria sido somente colher os frutos desta construção que fora feita durante todos estes anos, em cada pedacinho de nossas vidas e em cada momento de nossos olhares quando conversávamos sobre o futuro. E o futuro não chegou. Cortou abruptamente nossos olhares, nossos pedacinhos de construção, nosso mundo. Aliás, o mundo nos separou. Bere virou luz, enquanto eu seguro aqui em meus pensamentos toda esta soma de ideias e ações que estavam em nossos ideais.
   Este texto foi só o estopim. Coitado do autor, só tentou escrever motivando pessoas doídas. Pouco doídas, não como eu. Mas como numa revolta minha mão correu solta pelo teclado do computador agitando o bloco de notas, que quase travou, tamanha a velocidade de escrita expondo meu pensamento revoltoso. Porque o que sai de mim é sentir que amor é uma coisa que muitos tentam mascarar com palavras e atitudes que não existem. São só belas palavras.
   ...E comecei a escrever: "O amor é um acontecimento. Ele não pode ser moldado. Ele vem, acontece, vive e molda. Não tem o que mudar no amor. O amor é puro, ele não tem meias palavras, nem palavras bonitas, nem ensaios, nem previsões. Senão não é amor! Simplesmente o amor acontece. Ele é doação. Doação sem limites. Ele é reciprocidade, ele é mundo, vida, pulsação. O amor é soma. Soma de um pensamento que se completa com a reflexão em sintonia da pessoa amada. Você pensa, e quem você ama responde em sintonia, só na vibração. Isto é amor. Bere e eu éramos assim. Amor é amar barriguinha, rugas, seios caídos e roncos. Tudo se aceita no amor. Porque a essência, em vez de despencar, só cresce. E isto que faz não dar bola para aquele físico que já não é mais tão físico. O amor é medir consequências já sabendo o resultado desta medida, porque o amor não é uma aventura. É uma fórmula perfeita com seu resultado já apontado. O amor tem limites, mas é ilimitado. Sim, parece antagônico mas é verdadeiro. Por que? Porque o amor impõe limites a quem é amado mas é ilimitado para quem ama porque quem ama sabe, melhor, tem certeza de que a quem ama não precisa impor limites, pois seu amor sabe se limitar. Acho muito linda esta reflexão porque Bere e eu vivíamos isto e vivemos 31 anos juntos sem ao menos em um momento haver uma cena de ciúmes. Porque nosso amor não era limitado." 
   Sabíamos nossos limites. ...E por isto que me referi revoltoso no início do texto. Eu não consigo captar a magia de grandes amores nas entrelinhas dos textos escritos sobre o amor. Porque o amor não é feito de linhas. As linhas do amor todos conhecem. O amor é feito das entrelinhas. Aqueles espaços miudinhos que ficam escondidos entre o glamour dos espaços preenchidos. Porque amor não tolera glamour. Ele exige só a essência. O que evapora, o amor dispensa. Mas o que sobra no frasco, isto sim é importante para ele e isto é a essência do amor. O amor é a vida acontecendo livre, solta no mundo. Porque amor que prende, já perdeu sua essência. A vida livre tem como subir, alcançar alturas incomensuráveis onde encontrará mais energia e onde a pureza do seu meio e onde a tranquilidade do seu discernimento lhe ditará que tudo é verdadeiramente a beleza de uma soma de amores.  E ele acontece. Lindo, pleno forte e sincero. Isto é o amor. O resto, é o resto. 
   Eu queria muito um dia ler um texto motivacional de alguém que arrancou de dentro de si as palavras certas no momento mais crucial, quando a saudade da ausência, da perda de um grande amor aconteceu. Porque esta sensação, não é possível descrever. Não existem palavras. Só existem sentimentos. E estes sentimentos são muito maiores que as maiores e mais perfeitas palavras. O sentimento de distância compulsória pelo destino não tem descrição. Só tem sentimento. Só. E as palavras de conforto que sobram são unicamente as lágrimas derramadas uma a uma, gota por gota, deste aperto que uma saudade destas dá. Até o peito aliviar e poder seguir com um sorriso no rosto. Enquanto vai se formando dentro deste mesmo peito, aos poucos, no silêncio, um novo momento. Só basta ativar o estopim. E o de hoje foi receber correspondência no nome da Bere. Pronto. Tá feito. Já vou explodir de novo. 

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Bere e Camboriú




   Camboriú

   Está de partida a turma que em todos os anos, nesta época, vai a Balneário Camboriú em Santa Catarina. Muitos destes passageiros são os mesmos, vão todos os anos. Neste ano, uma passageira assídua faltará. A Bere. Durante sete anos seguidos ela viajou com esta turma. Este seria o oitavo ano. Mas não viajará mais. Sua viagem definitiva já aconteceu, e quis o destino que fosse antes. Sem mais ver o mar como ela protagonizou lá em Itacaré na Bahia em Agosto, durante nossa caminhada à beira mar num fim de tarde: "Pena que eu nunca mais verei isto!" - Disse taxativa enquanto admirava o marzão de Meu Deus se desmanchando em marolinhas gostosas aos nossos pés. E não verá mais.
   Ainda estes dias, quando peguei sua agenda para ligar para Itapema, esbarrei em sua penúltima anotação: "Viagem Camboriú. 13/11, quarta feira a 17/11, domingo. (Anotação do custo do pacote). Pedir férias para a Neiva de 14 a 18."
   Vejo a alegria deste apontamento, no jeito como a letrinha dela pula dentro da agenda já mostrando o entusiasmo em realizar esta viagem mais uma vez. Letrinha solta, leve, feliz. Lembro que quando ela anotou isto, logo em seguida ligou para o escritório onde trabalhava, comunicando esta sua intenção. Não deixaria de ir junto, já que é uma turma alegre, positiva, divertida e ela mais uma vez teria 4 dias só para ela. Bere adorava Camboriú. Por diversas vezes afirmou para mim, também para amigos, que se um dia tivesse que abrir mão de morar aqui, em nossa cidade, com certeza escolheria Camboriú. 
   A cidade tem um encanto mágico que a fazia se sentir bem lá. Seus cafés, sua comida, o hotel com vista para o calçadão no centro, perto do mar, tomar chimarrão de tardezinha no hall do hotel vendo as pessoas passando na rua. A praia e sua ilha mágica emoldurando a cena daquele balneário. A viagem de barco até a praia de Laranjeiras e a volta pelo bondinho, olhando Camboriú de cima. E, no dia em que a maioria dos companheiros de viagem ia ao Beto Carrero World, ela ia para as lojas. Inúmeras lojas, lojinhas, todas oferecendo milhares de coisas, e onde ela se inspirava para comprar os presentes de Natal. Sim, Bere era assim: início de Dezembro ela estava com todos os presentes comprados, para alegrar o Natal de tantas pessoas de nossas relações. E ela escolhia com muito cuidado cada presente, se colocando no lugar da pessoa, e o que cada pessoa gostaria de receber. Ela adorava dar presentes.
   Em suas viagens quando ia sozinha, geralmente eu dava algum para ajudar em seus custos e quando ia a Camboriú ajudava nos custos para ela comprar estes presentes. Se vai somar, de presente em presente, se a turma é grande, a conta vai longe. E seus olhos brilhavam ao receber esta minha 'ajuda' e sempre dizia: "Primeiro vou tirar um presente pra ti. Depois, o que sobrar, vou usar para completar os outros presentes." 
   Mas na viagem do primeiro ano em 2006, eu não dei dinheiro para ela. Senti que ela estava tipo, esperando aquele meu gesto. Pois em outras viagens que fazia, eu sempre lhe ajudava nos custos. E eu fingia que não estava lembrando em dar algum para ela levar. Mesmo porque ela me contou que estava levando uma boa quantia, que achava que dava para comprar tudo o que queria. E no seu íntimo, como eu a conhecia bem demais, ela deve ter pensado:    "Ele não vai me dar dinheiro porque eu disse que tenho o suficiente!"
   Mas não: eu botei um envelope com um bilhete e uma soma em dinheio em sua mala sem ela ver, no meio dos biquínis para ter certeza de que ela iria encontrar. E claro, ela encontrou. Nossa, assim que achou o bilhete ligou para mim, dizendo que tinha achado estranho eu não ter lhe ajudado nos custos desta viagem. Mas que agora ela tinha entendido o motivo. Ela estava radiante. Aliás, Bere ligava de manhã, de tarde e de noite, todos os dias. Não deixava de entrar em contato, para pelo menos ouvir a minha voz. Ela sempre iniciava dizendo: "Vidinha, tá cuidando bem dos meninos?" E eu respondia: "Claro, amor! Imagina tu e eu somados. Assim eu cuido deles." Ela ria, e começava a falar sobre seu dia, suas atividades, eu notava uma alegria imensa nela em compartilhar isto comigo. 
   Até numa das viagens a Camboriú, ela me ligou altas horas da noite, tipo meia noite. Eu atendi e só ouvia risada do outro lado. Ria, ria, até que suspirou e disse: "Pio, vem me acudir, estou bêbada!" E ria de novo junto com sua colega de quarto, acho que era a prima Tânia. Eu comecei a rir e disse: "Mas o que você tomou para estar assim?" Ela respondeu: "Duas latinhas de cerveja." Eu ri mais ainda da fraqueza dela por bebida. Então disse: "Vai, abre o chuveiro e toma um banho demorado que passa." E ela rindo continuou e me contou que tinham ido se divertir numa boate. Aliás, toda a turma foi. "Mas não dancei com ninguém!" - Arremedou. 
   No outro dia, de manhã cedo ela me ligou para contar o que tinha acontecido de fato. Em detalhes. Ela era assim: tudo na real, sem rodeios. Então eu disse que podia ter dançado pois eu sabia que aquilo era só diversão e jamais imaginaria que se divertir com uma turma de colegas de viagem numa boate, seria motivo de traição. Jamais. A alegria de viver não deve ser enforcada em recalques de pensamentos que aprisionam.
   Estes dias, precisei colocar sabonete novo no banheiro. Mais ou menos um mês antes de ela falecer, ela tinha comentado comigo que tinha uma caixinha cheia de sabonetes da Natura que já estavam guardados há mais de ano, e que era bom utilizá-los para que não ficassem tão velhos. Me lembrei disto e fui procurar no armário dela, onde ela fazia estoque de cremes e afins, e encontrei a caixa destes sabonetes. Como estavam na prateleira acima de minha linha de visão, peguei na caixa e puxei. Veio junto, caiu no chão, justamente o bilhete que eu havia escrito para ela em 2006, quando coloquei um dinheirinho junto em sua mala de viagem a Camboriú.
   Fiquei muito tocado quando vi este bilhete. Porque ele em si, apesar de pequeno, é uma história inteira que ele guarda. E isto toca, isto trás ela de volta em tantas lembranças, mas desta vez, gostosas. 
   Pois é: até este bilhete ela guardou. Lembro naquele ano quando ela voltou, a sua ânsia em me mostrar o traje de verão que havia comprado com o dinheirinho que eu havia separado do resto, para que ela gastasse com ela. Ela vestiu, veio me mostrar e perguntou: "Fiquei gostosa?"








sábado, 9 de novembro de 2013

Chorinho de Bebê



Chorinho de Bebê

   Bere adorava crianças. De todos os tamanhos. Seus olhos negros fitavam tão angelicalmente estes pimpolhos, que sempre parecia ser ela a mãe. É. Ela dava ares de mãe para qualquer criança que cruzasse seu caminho. E isto era mais um fator que nos ligava intensamente. Eu também adoro crianças. De qualquer idade. Esta nossa ligação já vem de muito tempo, pois sempre demonstramos isto. E criança sente isto muito mais do que um adulto. Crianças que sentem uma ligação intensa com elas, se aconchegam e deixam tudo vibrar para elas. Elas sugam nossa energia em toda a sua intensidade porque sentem que as amamos e que temos uma ligação afetiva concreta com elas.
   Ainda está cheio o pote de balinhas e o outro pote de pirulitos ali no canto da cozinha. Está cheio porque Bere nunca deixou eles esvaziarem. Deus me livre uma criança entrar em nosso mundo sem levar pelo menos uma balinha. E se fosse maior, um pirulito. E Ela ensinava: "As balinhas devem ser macias para as crianças poderem mastigar sem engulir direto e se engasgar. Já os pirulitos, tem que cuidar para que sejam aqueles que tem a haste bem embutida para não soltar enquanto a criança bota o pirulito na boca." Guloseimas para selar a paixão e o carinho para estas luzes de Deus, que tanto bem nos fazem e que tanto encantam nossa existência.
   Teve uma época em que pensamos em adotar uma menina. De qualquer cor, viesse como e de onde viesse, de qualquer jeito, desde que fosse uma menina. O motivo de ser menina? Simples: como temos dois meninos e como eu sou muito amoroso com meninas, adotaríamos uma menina. Bere queria isto. Ela sentia no seu mundo, seu modo de pensar, que ela havia ficado devendo um bem maior em nosso relacionamento. Uma menina, por eu ter tanto carinho por elas. E ela falou sobre isto em nossas tantas conversas que sempre aconteciam, na hora do chimarrão, onde tudo era dito e ponderado. Sempre dizia que se sentia não plena em nossa história de amor, porque eu queria ter uma filha e ela não me tinha dado esta graça. Mas eu sempre retrucava que não era verdade. Que ela não ficou devendo nada! Afinal, com os dois filhos, podíamos um dia ter netas, então o ciclo se completaria. Claro, eu nunca neguei que se tivesse uma filha, me sentiria o pai completo, já que tenho dois filhos maravilhosos. E Bere, por eu ter uma afinidade tão afável por uma pretensa filha, achou que devia me conceder uma filha, nem que fosse adotada. E ela foi atrás. Mas os percalços da vida e a burocracia não lhe deram a chance de concretizar seu desejo. A explicação é simples: porque na época em que tínhamos vigor físico suficiente e queríamos adotar, para criar mais um serzinho em nosso lar, a burocracia para uma atitude tão humana e também, em parte, o fator financeiro impediram ela de realizar este sonho.
   Por outro lado, eu dizia a ela: "Deus me impediu de ter uma filha porque eu iria mimá-la demais." Ela ria do que eu falava. Mas sabia que eu estava sendo sincero. Então retrucava: "Sabe que menina mimada até que não seria tão chata assim? Eu queria! Seria uma companheirinha que mesmo que quebrasse meus batons, se borrasse com minhas maquiagens, tropeçasse em meus saltos altos e eu flagrasse usando meus perfumes, me olharia e diria: "Mamãe, eu só queria ser como você!"" E completava: "Nossa! Podia ter qualquer nome, qualquer idade, qualquer mania. Eu mudaria tudo nela, com paciência e com carinho, dando o amor necessário, para ter uma companheirinha em todos os momentos!" E finalizava: "Se viesse sem nome e eu pudesse escolher, chamaria Kelly." Era nosso sonho ter uma Kelly.
   Mas, foi um projeto em nossa vida que não aconteceu. Pelos motivos que muitos conhecem e que deixam tantos serzinhos adoráveis empilhados nos orfanatos, crescendo amargos porque a burocracia não lhes abriu as portas para um lar que as tornasse filhas e filhos e lhes deixasse crescer com dignidade. Serzinhos que jamais vão experimentar o gosto de ter uma família, um lar, alguém que os ame de verdade e um sonho realizado. Em contrapartida, famílias que lhes dariam a razão para serem felizes. 
   Um dia, de tardezinha, horário de verão, nós dois sentados na calçada na frente de casa, ela com a cuia do chimarrão na mão, olhou para mim. Ficou lendo minha alma com aquele olhar profundo e disse, sem tirar os olhos de mim: "Quer mesmo ter uma filha?" - Eu respondi: "Quem não quer?" - Na época, ela tinha em torno de 35 anos. Continuando a me fitar com seu olhar avassalador, respirou fundo e retrucou: "Então, vamos tentar mais um filho! Se for menina, Kelly será bem vinda. Se for menino, vamos agradecer a Deus a bênção de mais um filho!" Na época a gente não estava bem financeiramente, mas em meu pensamento vi uma menina abraçada a ela e aceitei o desafio. Ela, ainda me encarando disse: "Nosso amor vai nos trazer todos os meios para criarmos mais um serzinho em nosso meio. Quem alimenta e veste dois, também alimenta e veste três!" Mas não aconteceu. Não vingou. Talvez pela ânsia em realizarmos este sonho, talvez porque nosso destino foi o de ficar somente com os dois filhos maravilhosos que geramos.
   Sua paixão por crianças não tinha limite. E mesmo nos últimos tempos, ela em tratamento, fraquinha com as intermináveis quimioterapias, um dia ouviu a Maria Clara, filha da vizinha chorando no meio da tarde, me chamou e cochichou: 
   - Que vontade de ir ali e pegar a Maria Clara e trazer pra casa e dar umas mimadas nela. Escuta só o chorinhoooo! Ai que dó!
   Eu só ri e respondi:
   - A vizinha está criando a filha dela do jeito como nós criamos os nossos: choro de manha, não se encobre. Deixa chorar. 
   Ela riu e concordou.
   Agora, todas as vezem em que ouço as manhinhas da Maria Clara, me lembro da Bere fazendo carinha de dó, doida pra trazer a menina aqui em casa e encher de mimos. Esta é uma lembrança gostosa, que me dá satisfação em sentir, porque volta um filme inteiro de muito amor e carinho que ela sempre teve para com os pimpolhos. 
   Eu continuo mantendo os potes cheios de balinhas e pirulitos. Ela não gostaria que eu deixasse uma criança sair aqui de casa sem uma guloseima.

Com a sobrinha neta Lívia

Uma tarde na piscina com gostoso cachorro quente depois, com Maria Júlia e Natália, filhas de colegas de trabalho.

 Com Bianca, sobrinha neta.

 Com o filho Wagner

 Com o filho Guilherme

Com a sobrinha e afilhada Jéssica, amor de mãe mesmo!

Outra foto com a sobrinha neta Lívia

 Com o sobrinho neto Murilo

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Etapas




 Etapas.

   Em Fevereiro estivemos 10 dias em Itapema, Santa Catarina. Foram férias maravilhosas, muito sol. Praia gostosa, a de Meia Praia. Ainda há algumas das casas que foram construídas nos anos 60 e 70 pelos primeiros veranistas. No mais, a cidade está tomada de prédios, e a cidade em si, está virada num canteiro de obras. Bere havia conseguido o telefone da Rose, uma senhora que agenda aluguel para algumas destas casas. Ano passado, por esta época, liguei para Rose e aluguei uma destas casas para veranear. Como sempre, depois de fazer o negócio em si, Bere tomava o telefone para saber detalhes da casa, o que tinha que levar para termos férias aconchegantes. Nossa, como ela era detalhista: indagava tudo. Queria saber sobre utensílios, mobília, enfim, tudo que ela precisava levar para as férias serem "as melhores dos últimos anos!", como sempre dizia na volta, assim que chegávamos em casa, depois de ter se certificado que a viagem de volta também fora tranquila.
   Gostamos tanto desta casa, é grande, tem pátio com amendoeira enorme na frente, linda sombra, a duas quadras do mar, no centro. Ao voltarmos, decidimos alugar a mesma casa novamente em Fevereiro de 2014. É a última coisa anotada na agenda da Bere: "começo de Novembro: ligar para dona Rose para alugar casa em Itapema."
   Cumpri isto ontem à noite. Agenda da Bere aberta, sua letrinha a minha frente, escrita alegre e desenhada, já me travou. Enguli em seco, pensei: "Tem de ser feito, ela queria tanto isto de novo! Vamos lá!" Peguei o telefone, cada número discado acelerou mais meu coração e quando o número completou ele estava aos pulos. E eu sufocado. Esperei uns segundos. Pareceu uma eternidade. Meu peito estava procurando espaço para pulsar mais. Por sorte, a linha estava ocupada. Respirei fundo, aliviado por não ter podido completar a ligação. Esperei um pouco e para me distrair fui limpar a geladeira da garagem que havia posto a degelar. 
   Enquanto estava nesta função, eu travava uma batalha interna para libertar de mim esta sensação pesada que eu havia construído em cima do simples fato de ligar para Rose para alugar sua casa. Mas o que pesava não era a ligação em si. Mas a realização de mais um sonho da Bere que não vai ser completo. Bere partiu antes. E o seu imenso desejo em realizá-lo novamente é o que justamente pesou para ligar. No fundo, no fundo, eu estava a ponto de ir atrás de um sonho bem mais dela do que meu. E ela vibrava muito com a possibilidade de repetirmos isso.
   Falamos tanto nestas férias durante o tratamento dela, enquanto ficávamos sós na sala de quimioterapia, nas intermináveis seções de 6 horas. A vontade em rever Itapema, 'correr lojinhas', tudo perto, comprar roupa de cama que lá é bem em conta, ir na cafeteria. Ela adorava tomar chimarrão ao entardecer no calçadão de fronte ao mar, vendo as mães com seus filhos fora do sol para protegê-los. Andar abraçados sem rumo na rua central e parar numa sorveteria para um sorvete. Depois, parada bem demorada na livraria revirando livros, comprar e ter leitura para o ano inteiro. E dos comprados este ano, três ela não alcançou ler. Entre eles, Um Otimista Incorrigível de Michael J. Fox. De noite ir na pizzaria, lotada de gente risonha e de línguas misturadas em vários idiomas. Ou jantar no restaurante em frente ao mar, enquanto acompanhávamos cantando o músico que se apresentava ao vivo.
   Tudo isto correu em minha mente, assim como o pano correu as prateleiras da geladeira vazia. Mas tinha de ser feito. E fiz. Terminei a geladeira, religuei, repus as coisas que havia posto na geladeira da cozinha, sentei à mesa. Agenda aberta mais uma vez, sua letrinha pulando naquela folha numa alegre anotação, e eu, com meu conflito pessoal. Disquei ligeiro os números para nem sentir a ligação fechando e já o telefone chamou do outro lado. Quando o coração ia disparar, Rose atendeu. Minha voz estava tremendo. Rose, com calma e simpática conversou comigo, tratamos os valores e ela ficou de confirmar a data. Quando eu ia agradecer, minha voz já embargada, ainda tremendo, ela pediu para falar "com sua esposa para acertar os detalhes da casa." Nossa! Aquilo me atravessou como um risco e se alojou em meu pescoço, me sufocando. Respiração difícil, respondi choroso: "Bere faleceu há quarenta e dois dias."
   Um silêncio demorado imperou entre nós dois. Bastante tempo. Do outro lado da linha ouvia uma respiração nervosa, contrita, incógnita. Eu, tentando me fazer de forte, só senti duas lágrimas correndo do canto de meus olhos, enquanto ninguém se atreveu a falar. Até que eu quebrei o silêncio porque não enxergava mais de tão marejado que estava, e disse que podia acertar os detalhes comigo mesmo. Ela só conseguiu engrolar com uma vozinha sufocada: "Tá tudo como foi neste ano, nada mudou. Pode trazer as mesmas coisas." Eu agradeci. Ainda disse a ela que estava realizando o sonho da Bere, mas que iríamos só eu e os meninos, e talvez alguém mais da família. E ela disse que retornaria ligando para confirmar a data.
   Depois da ligação caí num mar de choro. Nossa, até aí eu estava me sentindo forte, pois eu tinha conseguido ficar dois dias sem chorar, estava começando a me sentir mais seguro. Porém, acabei em uma só vez derramando as lágrimas de três dias.
   A casa está alugada. Não pensei que seria tão difícil cumprir esta etapa, mas cumpri. Bere assim o queria. Eu assim o farei. Tenho certeza que Bere está vibrando com minha atitude. Eu sinto que me seguro no jeito dela agir. E isto nos liga. E até Fevereiro, mais tempo vai ter passado e com certeza vamos ter férias muito alegres, mesmo sem ela.


Chimarrão no fim de tarde no calçadão defronte ao mar



A Casa


A amendoeira e sua sombra



'Correr lojas', fazer comprinhas, presentes para todas as pessoas que Bere queria bem. Escolhia a dedo.


 Praia lotada, descanso, mas deu pra tirar um tempinho e comprar uma bijuteria do indiozinho que passou vendendo. E a conversa com ele, agradando. Preço da pulseira? 4 Reais. Ela deu 10 reais e disse para ele comprar um refrigerante ou um sorvete com o troco. Pouco tempo depoois ele passou lá e mostrou orgulhoso a lata de Coca Cola que ele havia comprado.

 Mar de água limpa e cristalina


Praia de Meia Praia - Itapema



Centro de Meia Praia - Itapema



Calçadão



 Esperando o almoço ficar pronto



Jogando Imagem e Ação na cozinha.



Esperando a pizza na pizzaria.



Preparando o almoço: Bife à milanesa



Cena que não vai se repetir mais



Prontos para saír, andar no centro, depois jantar



O inseparável café...


...e chimarrão


Pausa na leitura, para uma namoradinha e uma foto



Almoço na beira do mar em Meia Praia - Itapema, não tem preço.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Entender Mais




Entender Mais

   O sono não vem. A noite está em paz, e eu, já por duas vezes quis ir dormir, mas não estou com um pingo de sono. São duas e quinze. Tá aqui, girando na mente e eu preciso por no papel. Preciso escrever para eu tentar entender. E ao formular as ideias possa realmente entender e fazer entender meu pensamento. E se somente ela me ouvir, isto será tudo. Não sei por que, mas acho que escrevendo, Bere capta melhor meu pensamento. Quero dizer que não estou mal, estou tranquilo e sereno. Mas eu gostaria de falar tantas coisas. Falar deste mundo que tantos transformam em algo cruel e imoral, enquanto a vida voa, evapora, vai. O que ontem foi um todo, um completo, hoje pode simplesmente deixar de ser. Ou ainda, quando começar a tentar recuperar momentos que poderiam ter sido diferentes, verá que não há mais tempo para isto. E a vida pode ser tão simples, tão gostosa e tão aconchegante. Nossa vida, a minha e a da Bere foi assim. Aconchegante. 
   Por que então tantas pessoas resolvem se trucidar para, sei lá, mostrar ao mundo que venceram pela força? Me pergunto isto porque ao meu redor ouço e vejo tantas coisas acontecerem que não mereciam a ênfase que lhes é dada, muito menos o ensaio melodramático de um fim de mundo pré anunciado. As coisas acontecem, as pessoas se ferem e se machucam porque o mundo lhes parece somente aqueles ínfimos centímetros ao redor do umbigo e tudo tentam impor. E com isto se machucam. Parece até que se feriram mortalmente numa batalha que não existiu. Uma batalha que somente foi travada entre elas e seu mundo de valores que contemplaram muito mais preceitos e preconceitos do que o de mais humano pudesse existir, a essência da pessoa em si. A essência do ser humano que é o amor. Mas, em seu mesquinho mundo, os seus valores são fundamentais. Mesmo que passem por cima de sentimentos, vidas, acontecimentos, e tudo que tão importante para outros possa parecer. Simplesmente passam, arruínam, transformam vidas em cacos, com suas atitudes e palavras, e desaparecem. 
   O valor da pessoa tem muito mais conteúdo do que clichês que foram estabelecidos. E estes bobos clichês muitas vezes separam os laços em sentimentos sofridos, separando as pessoas do amor, as mantendo só ligadas por conveniência.
Bere sempre dizia: "As pessoas de quem eu gosto, gosto por amor. Se estiverem cometendo erros, isto só fará mal a estas pessoas, e elas têm que descobrir por si que estão se fazendo mal, e não eu dizer."
   Aonde quero chegar? Justamente no ponto onde tem tantas pessoas que querem estabelecer condições de acordo com sua opinião e seu mundo, sem ligar para o sentimento das pessoas com quem convivem. Ninguém vai conseguir o amor e o respeito de alguém, por mais que ame, impondo limites e condições, ou, subordinando, ou ainda se fazendo possuidor. O amor acontece, livremente, ele não impõe condições. E só se ama de verdade, quando se der total liberdade à pessoa amada, pois uma ligação de amor é imune a tentações e traição. Esta é a essência da vida.
   Pessoas machucadas, quando jovens sofrem muito mais. Porque elas ainda não encontraram dentro de seus sentimentos a verdadeira essência do amor. Então vem a dúvida sobre seus sentimentos mais puros. Pois na contrapartida recebem palavras que machucam. E muitas vezes das pessoas por quem eles alimentam o maior laço de amor. Atitudes assim podem deixá-las vazias e de sentimentos superficiais. E é tão bom amar plenamente, sem ser superficial. Amor agrega. Sempre. 
   Eu ainda amo. Amo muito. Quando este sentimento vai finalmente me libertar desta ligação tão forte? Não sei. Eu queria simplesmente pensar na Bere como algo doce que vibrou comigo tanto tempo e que só me fez bem. Mas não consigo, pois a ligação que nos une é mais forte. Minha energia ainda está possuída da sua energia. Difícil explicar, mas muito fácil e gostoso sentir. E quando eu vejo pessoas se machucando enquanto o amor poderia estar presente, sinto mais ainda a falta dela, em conversar sobre isto na hora do chimarrão como tantas vezes fizemos e ouvir a opinião tão sóbria que ela sempre formulava.
   No meu íntimo até consigo pescar suas palavras: "Ferir com palavras dói mais que uma surra. A surra cicatriza, mas o ferimento das palavras não cicatriza nunca."    Ela diria isso.
   São três e meia. Madrugada completamente silenciosa. Agora o sono veio. Vou dormir.

domingo, 3 de novembro de 2013

A Maionese



A Maionese.

   Hoje não fiz maionese. Apesar de ser Domingo, e este ser um prato tradicional em Domingos aqui em casa, não fiz. Até cozinhei as batatas, 4, estão prontas, cozidas, junto também, um ovo cozido. Aliás, o ovo foi tirado 15 minutos depois de começar a ferver "para a clara não ficar borrachuda" como Bere sempre me ensinou. Quando tinha descascado a primeira batata com a colherinha de chá como ela sempre fazia, travei. Do mesmo jeito como no domingo passado também não fiz, travei na hora da colherinha. Batatas cozidas, sem maionese. Olhei para aquele prato e me lembrei de tantas vezes em que aos domingos, a maionese era uma simbiose nossa. Muito além de ser um simples prato culinário, ele nos ligava, ele nos fazia ser a essência de nós dois. Cada um fazendo uma parte deste prato, que acabava virando o prato sempre elogiado, muito elogiado por tantas pessoas a nós queridas que passaram conosco no almoço em tantos domingos especiais. Sempre era assim: eu batia a maionese em si, no mixer e temperava as batatas e demais picados com sal e vinagre. Ela tinha medo de "errar a mão" como dizia. E sempre ficava com sabor sem igual, especial, indescritível. Ela, preparava as batatas e picava os demais ingredientes. No fim, ela misturava a maionese, uma medida crítica para deixar o prato no ponto.
   Mas para Bere não era só preparar as batatas em si. Para ela era como um ritual. De concentração e entrega focada nesta ação. Ela fazia aquele prato com tanto carinho, acrescentando muitas coisas para deixá-la colorida, como ela gostava: temperinho verde, pimentão verde,vermelho e amarelo, tomate, pepino, palmito. Uma maionese com conteúdo, assim como foi toda a nossa vida em comum, com conteúdo. Tinha domingos onde a maionese pra mim era mais gostosa que o churrasco em si. Sabor perfeito! Pleno! Sabe, aquele sabor de tudo presente, tudo sentido, tudo no gosto? Era assim.
   O jeito da Bere em perder muito tempo picando aqueles ingredientes em pedacinhos microscópicos "para agregar sabor" como dizia, deixavam aquele prato tão bem preparado, único. Até nisto ela botava amor. O carinho em fazer um prato muito especial, só para nós dois, somente, já que os filhos não comem. Mas era o nosso prato. Nosso coroar de domingo, para uma semana que havia passado cheio de muitos altos, alguns baixos, mas que tirávamos de letra porque ela era de atitude. Bere tinha sempre serenidade para encarar, e depois de ver o que fazer, tomar a atitude certa. E nosso brinde acontecia no almoço especial de domingo, com maionese, preparada por nós dois.
    Olho para estas batatas mas não enxergo vida nelas. E alimento é vida. Alimento é energia, mas a energia que tinha dentro deste alimento, a maionese, se foi há 30 e poucos dias. Se fosse preparar a maionese, com certeza não teria gosto de nada, porque faltaria a liga, a vida, a energia que tantas vezes ela acrescentou no preparo deste prato. Difícil explicar. Mas tem coisas que me amarram nela com tanta intensidade, que não é fácil desapegar. Um simples prato de maionese. Um complicado emaranhado de lembranças. Como desapegar, se na hora do almoço de domingo, a primeira garfada da Bere era sempre a maionese para "sentir seu sabor" e o elogio em seguida, dando parabéns à equipe, nós dois, já que fora feito desta forma? Como? Não tenho como. Olho para aquele pote de vidro com tampa de plástico, comprado especialmente para fazer a maionese, tapar e deixá-la livre do ar, mas não tenho vontade em preencher aquele pote. Penso: "Só 4 batatinhas mais um ovo não vão preencher nem o fundo deste pote!" E antes ele ficava ricamente colorido com tantas coisas nele acrescentadas.
   Um dia vou voltar a fazer maionese. Tenho que superar esta barreira, eu sei. Mas são etapas difíceis de serem vencidas. Porque uma batata cozida e uma colherinha me trazem de volta tantos momentos especiais, em casa, na praia, nos encontros da família, onde ela orgulhosamente desempenhava a tarefa porque sabia do belo resultado que isto traria. E mais uma vez as lágrimas me traem. Juro, não queria chorar, não queria mesmo, mas não tem como. Puxar isto tudo de dentro de nossa existência é muito forte, é muito real, é muito vivo. Puxar detalhes lindos, puros, de significado fugaz para tantos, mas que para mim têm dentro uma história inteira, uma vida inteira, um amor inteiro, não tem como não chorar.                 Péraí.... vou lavar a cara.
    Mas prometo: vou voltar a fazer maionese. Talvez no próximo domingo, quem sabe.
 


sábado, 2 de novembro de 2013

O Inadiável


  O Inadiável


  Mais um compromisso carregado de emoção me aguarda esta tarde. Vou ao cemitério. A última vez em que estive lá, eu vi voltando à terra o meu bem mais precioso, a metade do meu coração, minha Vidinha. Ainda cintilam em meus ouvidos a chorosa canção "Com Minha mãe estarei" que entoaram na derradeira descida da Bere para seu paradeiro final há trinta e poucos dias. Me lembrei do dia em que minha mãe foi sepultada, onde esta canção também foi cantada e onde eu, que até lá, nos meus masculinos 26 anos ainda não havia chorado, porque 'homem não chora', me debulhei num pranto inconsolável, vindo a ser acudido justamente pela Bere. E ela sussurrando em meu ouvido dizia: "Compartilha tua dor comigo para que não pese tanto em ti." Estávamos recém casados, e a trágica morte de minha mãe foi o primeiro ensaio em minha vida, de outros tantos, do que viria a ser a perda de um ente tão próximo.
  Naquele momento da canção me lembrei dos filhos. Wagner, o mais velho, justamente com a mesma idade que eu tinha, perdeu sua mãe, aos 26 anos, e Guilherme, aos 21. Uma canção tocante e chorosa como esta massacra os sentimentos de um filho, ainda mais quando a ligação é tão intensa como sempre foi entre ela e eles. Não vi a reação deles. Estava concentrado em levar em meu coração a imagem final desta grande mãe, que dos bastidores construiu nosso mundo, empurrando a todos para frente, entusiasmando, sem muitas vezes pensar em si porque o seu bem maior não era ela, mas nós, seu marido e filhos, para que estivéssemos felizes e realizados. Este era realmente o bem maior dela e o que a realizava plenamente.
  Sei que será uma tarde de tudo à flor da pele, de rever nossos últimos momentos neste filme que é colorido e está presente em muitos momentos de meus dias, onde sempre a mesma pergunta me persegue: "Por que justamente nós?" Mas, me consolo quando rebobino tudo o que trouxemos e até onde chegamos, e vejo que tantas pessoas jamais cruzam por alguma paixão, quem dirá por um grande amor. Que pessoas nascem, crescem, vivem e morrem e não têm o direito a sentir dentro de si o que eu senti e sinto agora e o que com certeza Bere também sentiu em toda a nossa vida em comum, um amor incondicional que foi todo, foi tudo e foi sempre. Que o amor foi antes de tudo o máximo, não teve lacunas, não teve dúvidas, não teve nada além de um grande amor, destes de olhar e já entender, sem precisar falar.
  Como ela gostava de flores, particularmente rosas vermelhas, levo 31 rosas vermelhas de 31 anos de feliz casamento, junto com duas rosas amarelas onde durante dois anos de namoro preparamos esta linda vida em comum.