quinta-feira, 12 de março de 2015

Hora da Faxina: Vinho no Prato




Vinho no Prato

   Antigamente, e não tão antigamente, os padres administravam além da paróquia em si, várias capelas, onde ao menos nos domingos, ou sábados, iam para celebrar a missa. E muitas vezes eles na volta, principalmente aos domingos, passavam na casa de algum fiel e se convidavam para almoçarem junto com esta família. O que era um problema na época da safra, quando os colonos trabalhavam sem dar bola para o domingo. O importante era colher toda a safra para deixá-la a salvo de intempéries.
   Tinha um padre, não faz muitos anos, que tinha uma pick-up e com ela ia até as paróquias rezar a missa, para na volta vir trazendo materiais e alimentos variados que ia encontrando pelas casas dos colonos. Todos sabiam deste seu comportamento. 
   Então, na época da safra, certo domingo, toda a família foi para a roça colher, deixando em casa só uma menina de seus doze anos para cuidar da casa. O pai dela a havia avisado que se caso o padre passasse na sua casa, a menina era para dar a ele tudo que pedisse.
   Perto do meio dia, o padre apareceu com seu carro naquela casa, parou, desceu e já foi recepcionado pela menina. Ela o convidou para entrar e ele aceitou. Quando estava na área que dava acesso à cozinha, viu uns sacos de cimento empilhados, então disse:
   - Minha filha, será que teu pai não poderia ajudar com as obras da paróquia doando um saco de cimento? - A menina respondeu:
   - Claro padre, pode pegar! Papai mandou te dar tudo o que pedisse.
   O padre carregou o saco de cimento, e nisso viu algumas galinhas ciscando pelo pátio. Ele disse:
   - Minha filha, será que eu não poderia pegar uma meia dúzia de galinhas para levar porque sempre fazemos sopão na paróquia e elas podem ser muito úteis para este prato. - A menina respondeu:
   - Claro, padre, pode pegar. - O padre foi catando as galinhas, amarrou suas pernas e as botou junto com o cimento na caçamba da pick-up. Ao voltar, a menina o aguardava na soleira da porta da cozinha. Ele disse:
   - Minha filha, sei que seu pai faz um vinho muito bom. Será que eu não poderia tomar um copo para matar a sede? - A menina respondeu:
   - Claro seu padre, entra e senta à mesa. - O padre entrou, sentou, e quando a menina viu onde ele havia se acomodado, foi até a adega e voltou com um prato cheio de vinho e uma colher. O padre pensou que ela não tivesse alcançado os copos na cristaleira e este seria o motivo de ter servido o vinho no prato. Tomou todo o vinho de colher em colher, pediu para repeitir, a menina o serviu, ele tomou mais um prato de colher em colher, agradeceu e foi embora.
   De tardezinha quando os pais voltaram da roça, perguntaram sobre o padre e ela disse que ele havia estado lá e levado um monte de coisas. Foi então que o pai viu que ela havia servido vinho num prato, pois ainda estava sujo sobre a mesa com a colher dentro dele. Intrigado perguntou: 
   - Filha, por que serviu vinho para o padre num prato e não num copo? Que feio isso! O que o padre pode ter pensado a respeito de nossa família?
   A menina respondeu:
   - Papai, tenho meus motivos e o senhor vai concordar. - O pai intrigado perguntou:
   - E que motivos são estes? - A menina, com um brilho de inteligência no olhar respondeu:
   - Porque se tivesse servido o vinho num copo, no lugar onde o padre sentou à mesa, toda a vez em que ele emborcasse o copo na boca para tomar, veria o salamito pendurado atrás do fogão secando, e certamente iria querer levar também. Aí já seria demais né pai?

terça-feira, 10 de março de 2015

Hora da Faxina: Penteando o Braço

(Na foto, tomando chimarrão no pátio que separava as casas da praia)



Penteando o Braço

   A gente passa na vida e vai conhecendo pessoas e lugares dos mais variados. É impressionante a quantidade de tipos de pessoas que existem, também lugares. Quando menos se espera ter conhecido algum lugar completamente diferente, a gente se depara com outro que inacreditavelmente muda nossa concepção sobre lugares conhecidos porque é muito mais diferente ainda.
   Assim, uma vez no fim dos anos noventa, conhecemos a enseada de Itapema. Um lugar divino, praia de pescadores, tranquilo, de mar calmo, especial para trazer crianças para férias despreocupantes porque o mar não oferecia perigo. Éramos uma turma grande, três famílias, filhos pequenos, e assim alugamos duas casas num pátio cercado naquela enseada, onde tinham mais duas casas. Todas eram interligadas com calçadas cercadas de vegetação florida, sombra, enfim, um lugar divino, onde deu muito gosto de ficar aqueles dez dias, além da tranquilidade, já que crianças exigem mais atenção. 
   De noite, quando a gente deitava, ouvia lá fora só o chlap, chlap, chlap das marolinhas quebrando no muro que separava o pátio de onde nos encontrávamos da areia branca da praia e do mar. Era maravilhoso adormecer assim, mar a menos de  trinta metros de distância e calmo. De manhã, se quiséssemos fazer algo diferente, era só levantar um pouco mais cedo e ir até a orla e ver os pescadores voltando de sua noitada no mar, com os barcos carregados de peixes, dos mais variados tipos e tamanhos. E todos se ajudavam, tirando a mercadoria dos barcos e encaminhando para a associação de pescadores, onde eram pesados, classificados e pagos para a alegria dos pescadores. Depois, voltar pra casa e tomar o café da manhã olhando o início da jornada de praia pertinho dali, quase junto ao mar, com línguas misturadas entre espanhol e português, já que a praia estava tomada de portenhos.
   Foram férias divinas. Muita comida, um dia fiz cinco quilos de batata frita, jogos, brincadeiras, esculturas na areia, e descontração total. Mas teve ali, um senhor que era casado com a senhora que alugava aquelas casas, que tinha um jeito bem particular de ser. Ele era da aparência de um viking, aquele tipo grandão, ruivo, todo peludo, e com olhar guerreiro. Ele sempre trazia um pente no bolso da camisa e chamava a atenção este detalhe. Até que um dia, quando uns argentinos tinham emporcalhado uma daquelas casas do condomínio que administravam, deixando sujeira para tudo que é lado, fraldas usadas pelos cantos da casa, restos de comida, um nojo de se ver. E o homem ficou nervoso. A esposa dele nos chamou para vermos a cena, e o homem para controlar seu nervosismo, tirou o pente do bolso e começou a pentear os pêlos dos braços com aquele pente que trazia no bolso. 
   Imagina a vontade de rir, tendo que permanecer sério na presença deles, afinal estavam mostrando aquela casa imunda para nós e o ruivo penteando nervosamente os pelos de seus braços.  Imagina a cena!

domingo, 8 de março de 2015

Dia Internacional da Mulher - 8 de Março. Minha homenagem


   Pois neste domingo comemoramos o dia internacional da MULHER. Sim, em letra maiúscula porque o mundo é hoje o que se apresenta graças aos encantos e sabedoria das mulheres. Se tudo tivesse sido feito pelos homens, seria tudo reto, sem curvas, sem detalhes. As mulheres os preencheram. E elas são o caldeirão que faz os homens terem seu tempero e sua eletricidade para realizarem tudo o que fazem.

   PARABÉNS A TODAS VOCÊS MULHERES!
   O MUNDO SEM VOCÊS NÃO TERIA GRAÇA NENHUMA!!!
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   Já levei uma dúzia de rosas amarelas no cemitério para Bere. E para homenagear a todas vocês mulheres, uma das máximas de Bere que guardei para este dia especial, dedicado a vocês. Acho que ela fala por si só:




sábado, 7 de março de 2015

17 meses sem Bere, viúvo.



   24 de Fevereiro: 17 meses sem Bere, viúvo

   Uma pessoa doce, de um jeito especial de ser, às vezes forte como a rocha, às vezes suave como a brisa, que adoçou e encantou minha vida. Uma pessoa séria de regras estabelecidas que me fez viver um mundo onde tudo pôde ser o mais perfeito possível. Uma pessoa de luz que com suas ideias sempre inteligentes, compartilhadas comigo, fez com que nossa vida tivesse em cada passo um degrau a mais galgado para nosso crescimento, tanto no relacionamento quanto na vida em si. Uma pessoa de um amor tão intenso que vivi a sua vida, vivi os seus dias e vivi os seus sonhos, tornando tudo isto meu, numa simbiose de reciprocidade, carinho e paixão. Uma pessoa guerreira que com sua garra me ensinou que temer sempre piora os resultados, pois mais vale uma luta perdida do que uma tentativa com medo e seu resultado frustrante justamente pelo temor do erro. Uma pessoa estimulante que chacoalhou meus dias para encarar os desafios me fazendo acreditar em meu potencial. E eu agia acreditando no estímulo dela, não no meu potencial. E o tempo me ensinou que ela tinha visto em mim talentos que eu mesmo desconhecia. Uma pessoa doce, que com um simples olhar conseguia açucarar minha vida pois da alma dela só emanava a sensação de bem-estar, de cumplicidade e parceria. Uma pessoa de paz, onde em seu aconchego meu mundo sempre encontrou guarida, sossego, alegria e um sono reparador, pois do meu lado estava a ternura em pessoa. Esta foi Bere

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   Nota: o artigo saiu com atraso devido às férias, das quais retornei ontem.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Hora da Faxina: Não Come Esse Feijão!




Não Come Esse Feijão!

   Fazer férias! ...Algo divino, maravilhoso, pois faz com que a gente desligue ao menos um pouco do mundo de todas as rotinas e entre em alguns dias num mundo de casa diferente, vida diferente, rotina diferente, com pessoas diferentes. Férias são exatamente para isso: fazer diferente! Por este motivo, a importância das férias. Não importa onde sejam, desde que te tirem da rotina. E se for em Santa Catarina, nas praias paradisíacas de lá, como foi este ano em Meia Praia, Itapema, melhor ainda. Porque mesmo com chuva, dá praia. Não tem vento e o guardassol acaba virando um bom e grande guarda-chuva. Com chuva o mar fica diferente, ele se torna mais rebelde e mostra melhor seu lado perigoso que tantas vezes as pessoas não querem enxergar.
   Mas o que é bacana mesmo, é ficar com pessoas diferentes durante estes dias de férias e todos se adaptarem ao ritmo dos outros para que tudo corra gostoso e amigável, de onde na volta só se trás notícias boas. Normalmente combino férias com pessoas da família, para convivermos mais de perto alguns dias, jogarmos, contarmos histórias do passado, enfim, selarmos ainda mais este laço de relação familiar.
   Numa destas férias fomos à Armação da Ilha, uma prainha paradisíaca no sul da ilha de Santa Catarina que tem os traços açorianos impressos em um monte de prédios e também no comportamento das pessoas. Foi minha família, e parentes, para passarmos dez dias lá. Casa cheia, famílias e filhos. Eu tenho um parente que não vive uma semana sem feijão, e três dias depois de estarmos veraneando, ele trocou a beira da praia por um fogão e uma panela de feijão, ficando em casa para cozinhá-lo. E ele caprichou, deixando o feijão divino, com um sabor inigualável e de uma aparência muito apetitosa. Quando voltamos da praia, as crianças já foram comendo feijão puro com pão que ele serviu em combuquinhas para saciar a fome. 
   O problema é que ele fez uma panelada de feijão. Acho que tinha cozinhado uns dois quilos e não tinha recipiente nem espaço na geladeira para guardar todo este feijão. E o coitado do feijão foi ficando no canto do fogão, esperando ser consumido lentamente. Calorão de mais de trinta graus, panela de alumínio, já imaginaram o revertério. No terceiro dia, com o feijão ainda em cima do fogão, só sendo requentado, achei melhor meus filhos não comerem mais, afinal estômago de criança é mais sensível e intoxica bem mais facilmente. Foi quando na hora da mesa, meu filho mais velho ia encher o prato, quando falei de boca fechada no meio dos dentes cerrados: "Não come esse feijão!"
   Ele obedeceu e não comeu. No outro dia, todo mundo estava meio desarranjado, menos minha família por não termos comido daquele feijão, e o parente veio se queixar dizendo:
   - Não estou bem do estômago! acho que foi aquela cerveja meio morna qeu tomei ontem de noite.
   Fomos até a fruteira comprar verduras, ele foi junto, cara de desarranjado, quando viu uma cabeça de repolho arrancou uma folha, saiu comendo e dizendo: "Acho que é isto que faltava para me por em dia!"

Hora da Faxina: O Primeiro Porre




O Primeiro Porre. 

  Imagina uma tarde quente de verão. Imagina esta tarde com uma represa aconchegante de águas cristalinas esperando por alguém entrar dentro dela e encontrar em suas águas um banho confortante. Uma represa funda, onde só quem sabia nadar podia entrar e usufruir. E eu e meu irmão, mais um amigo nosso, filho do dono da represa tínhamos este privilégio. Nadar aprendemos desde cedo, já que o rio Caí, com todas as suas armadilhas fazia com que a gente se obrigasse a enfrentar todos os seus desafios, nadando.
  Mas, foi uma tarde mágica naquelas águas. A convite de nosso amigo, tomamos banho durante um longo tempo na represa, que em sua saída tinha pedras íngremes e pontiagudas, algumas tomadas pelo limo, nada amigáveis para quem inventasse descer por este lado. A represa ficava no centro de Harmonia, e ela impulsionava uma roda d'água que movia uma serraria. A serraria dos Gewehr. E antes de ser serraria, era um alambique. E foi aí, no porão da serraria onde tinha este alambique, que tomei meu primeiro porre.
  Depois do banho gostoso, de ficarmos sentados sobre a barra da represa para secarmos um pouco nossas roupas ao sol, nosso amigo convidou meu irmão e eu para descermos aquelas pedras íngremes, lisas e com limo, uns quinze metros de altura, e quando lá embaixo, experimentarmos uma bebida gostosa que tinha dentro dos barris no subsolo da serraria. Eram barris enormes, dois no total. Aceitamos. E quando chegamos lá, naquele ambiente abandonado, cheio de teias de aranha, cheirando a coisa azeda, ele sentou na frente de um destes enormes barris e disse:
   - Este é um licor que meu pai fazia. Todos diziam que ele fazia isto muito bem, tanto que nós vamos experimentar hoje para ver se é verdade. Querem experimentar?
   Curiosos como éramos, assentimos com a cabeça, aceitando a oferta.
   Detalhe: isto foi nos anos sessenta e o pai dele falecera nos anos cinquenta. Então ele pegou um copo daqueles rajados, de servir vinho, uns cem mililitros de medida, abriu a torneira de madeira de um dos barris e encheu o copo. Na hora rescindiu no ar um aroma de licor meio adocicado, gostoso de sentir. Deu para meu irmão, que era o mais velho da turma para experimentar. Meu irmão tomou e aprovou o licor. Depois ele encheu um copo para ele, e também o tomou, para por fim, encher um copo e dar para mim. Eu tinha sete anos na época, ele tinha oito e meu irmão, nove. E o que tomamos era cachaça pura, envelhecida nos barris por mais de dez anos.
   Depois da seção de degustação, logo tudo já girou. Nos segurando pelas paredes, meu irmão e eu fomos para casa, que não era longe dali, já tomados pelo álcool, cambaleando e rindo de tudo. Quando chegamos em casa e a mãe viu nossa situação foi à loucura. Enfiou um ovo cru goela abaixo de cada um para fazer-nos vomitar. Vomitamos muito. Depois cada um ainda levou um surra. E a mãe ficava dizendo enquanto nos batia:
   - Que sintam o nojo de uma bebedeira para nunca mais repetirem, seus moleques!

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Hora da Faxina: Xota Canibal



Xota Canibal

   Talvez muitas pessoas não se lembram mais como era a geografia de nosso Caí antes de transformarem o lado da igreja católica em um amplo estacionamento. Até eu, fazendo esta crônica estou procurando montar mentalmente a imagem daquela quase quadra de casarões antigos e estilosos que ocupavam aquele espaço.
   Aquele espaço era bucólico. Na esquina com a praça o terreno era tão elevado que tinha uma escada de oito degraus, bem no encontro das ruas Henrique D'Ávila e Marechal Deodoro. E esta escada dava direto na entrada da porta da casa Kranz, que tinha se transformado de casarão em loja, com piso de madeira e tábuas rangendo quando a gente caminhava lá dentro no meio de um emaranhado de roupas e tecidos.
   Seguindo o lado da Marechal Deodoro, tinha um murinho de seus oitenta centímetros com formas de cimento em formato de pinos de bolão, dando um charme naquela calçada, onde a cada cinco metros tinha um frondoso ligustro, dando sombra nas tardes quentes de verão. E casais, crianças, gente com cachorros passeavam por ali, aproveitando aquela calçada larga e bucólica durante o dia inteiro. Ali a maior parte era de casas de moradia, todas num estilo de construções da metade do século vinte. Alguns pontos comerciais foram criados a partir do momento em que as casas eram desocupadas por seus proprietários por falecimento e os herdeiros as alugavam.
   Sempre gostei daquela passagem. Quando estava naquele espaço me sentia como se estivesse no topo de nossa cidade, já que dali era a parte mais alta para se observar o centro. Lindo de ver. E esta mesma calçada foi protagonista de muitos amassos proibidos na sombra e escuridão da noite embaixo das ligustros, com escassa iluminação de rua, bem diferente da praça ali pertinho, toda iluminada.
   A parte da calçada na Henrique D'Ávila em direção à igreja era do mesmo jeito. E lá, tinham mais dois estabelecimentos comerciais. Um era da Adriana e sua mãe, não tenho bem certeza do nome, mas acho que era Quitutes Tia Cota. Atendiam a gente com uma simpatia, quitutes dos mais saborosos, todos feitos pela tia Lori, uma cozinheira e quituteira de mão cheia. Eu adorava ir ali comprar frios porque a Adriana tinha o dom de fatiar os fiambres tão fininhos que quase ficavam transparentes. Hoje em dia não se encontra mais fiambres cortados deste jeito. E ela fatiava na hora, na frente do cliente. São todas lembranças das boas. 
   Do lado, já fazendo divisa com a igreja tinha uma loja de miudezas que tinha o nome do proprietário. O nome da loja: J C Anibal Comércio. Era uma loja tradicional, de muitos anos e era conhecida em toda a região, não só no Caí. Então, o pessoal de Harmonia, cidade vizinha, descendentes de alemães, com sotaque, então combinava:
   - Vamos sábado de tarde no Caí, comprar miudezas no Xota Canibal e depois vamos na missa do lado da loja.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Hora da Faxina: Supermercado




Supermercado

   Gosto de supermercados. Melhor: gosto de entrar em supermercados. Adoro fazer compras, caminhar entre as prateleiras e as gôndolas, ver novidades e principalmente seguir comprando paralelamente o que não consta na lista de compras. É uma espécie de ritual que a gente segue ao fazer estando no supermercado, olhando lista, olhando o que já tem no carrinho, vendo produtos, lendo rótulos... nossa, é uma atividade desestressante do mesmo jeito como é contar moedas. É algo do tipo onde não se imagina o desfecho, pois sempre haverão novidades no caminho.
   Passar na fruteira escolhendo as melhores verduras, as frutas mais apropriadas, acondicionando alface sem machucar em um saco plástico, decidindo entre brócolis ou couve-flor, entre pêssego ou ameixa, tudo é lúdico. Tudo é prazeroso de fazer. E ainda para melhorar a atividade, tem sempre alguém que chega perto, escolhe frutas e verduras também, e quando for uma pessoa conhecida o assunto já flui. E quando for uma pessoa desconhecida, então já existe um 'gancho' para iniciar um papo, ou quem sabe, uma amizade.
   A terapia do super é muito eficiente. Pois ela nos ensina a fazer economia com escolhas e nos faz criar cardápios para a semana, imaginando o que preparar cada dia, escolhendo entre saúde e combinação da boa, que vai fazer todos saírem 'gordos da mesa' como eu falo aqui em casa. Combinar sabores é algo que se aprende com o tempo. E se descobre que misturar fritura com comida é complicado para dar um sabor gostoso ao almoço. Geralmente dá certo com uma polenta cozida ou um purê de batatas.
   Entre tantas idas e vindas minhas ao supermercado, fico impressionado com o fato de que algumas pessoas preferem esperar no carro a parceira fazer as compras porque não tem 'saco' de ficar junto enquanto os melhores alimentos são escolhidos. Não sabem o que perdem neste belo treino de vida e saúde.
   E tem também as pessoas estressadas que ficam bufando no fila do caixa querendo que seu preferencial seja priorizado e que se dane a menina do caixa com a contabilidade no fim do dia. Putz. Eu fico irriquieto quando vejo alguém bufando na fila. Pois quando se vai ao supermercado a gente deve estar consciente de que pode demorar na fila, afinal todos podem ao mesmo tempo ter ido fazer suas compras.
   Pior ainda é quando se pega uma caixa de supermercado estressada. Eu vi um fato acontecer com a moça que estava na minha frente e tinha vários tipos de carne para passar. A menina do caixa, nem mais tão menina, calculo uns trinta anos, pegou cada saquinho de carne e atirou na balança na sua frente como se fosse um saco de lixo. Então, numa luz impagável a moça disse:
   - Moça, não precisa matar o boi de novo. Ele já tá morto.


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Hora da Faxina: Cada Uma!




Cada Uma!

   Eu estava sentado nos bancos de espera dos Correios aguardando minha vez. Quase todos os lugares estavam ocupados, cada um com sua senha na mão esperando a hora de ser chamado. Nisso, chamaram a pessoa que estava sentada do meu lado. A pessoa prontamente levantou e seguiu até o guichê, e quase no mesmo instante sentou ao meu lado uma garota de lá seus trinta e poucos anos. Pediu licença, e enquanto eu olhava para ela e dizia: "Fique à vontade!" - ela já foi sentando. Seu vestido era tão curto que, mesmo eu não querendo, vi que usava uma calcinha azul petróleo, pois o vestido subiu até lá enquanto ela sentava. Ela o puxou de volta discretamente, fazendo sumir o que vestia embaixo. Mas só isso. Ainda estava quase a descoberto.
   Fiquei pensando o que fazia uma garota já um pouco mais madura se vestir feito uma adolescente, sem se preocupar com isso, sem pudor. Podia até já ser mãe pela aparência. Enquanto eu dissertava sobre esta dúvida em meus pensamentos, ela puxou assunto:
   - O senhor vem sempre aqui?
   Respondi que não, que era só de vez em quando, quando tivesse algum sedex para enviar, ou para pegar algum pacote que viesse do exterior e que tivesse sido tributado. Então, ela girou para mim no seu assento, retraindo perigosamente o vestido até a calcinha sem se dar conta, ou sem se preocupar com isso e disse:
   - Sabe por que eu vim aqui?
   - Não faço nem ideia! - Respondi meio sem jeito pelo quadro que ela me apresentava, enquanto eu pensava se falaria sobre sua exposição íntima azul petróleo ou não. Estava tudo ali, à mostra. Ela sorriu, me deixando no suspense de tentar adivinhar sobre o motivo de estar ali. Tentei criar alguma lógica com o que ela me apresentava: corpo dourado com marquinha de biquíni no pescoço, denotando banho de sol. E pelo vestido curto, estava também mostrando aquelas pernas cor de canela, de um cuidadoso bronzeado. Ela aguardou mais um pouco sem mudar sua posição exposta no assento e por fim, vendo que eu não dizia nada sorriu mais uma vez, dizendo:
   - É uma longa história. ...Eu vim aqui no correio pegar um pacote que eu mesma me enviei.
   Franzi a testa sem entender. e antes que perguntasse, ela continuou:
   - Minha colega de trabalho disse que eu estava mentindo quando falei que iria tirar minhas férias em Porto Seguro na Bahia. Que só acreditava se mostrasse uma prova definitiva pois fotos dava para editar e fazer parecer ter estado lá.
   Fiquei curioso sobre a prova. Então perguntei:
   - E que prova é esta que tiveste que vir buscar aqui no Correio?
   - Em minha rua, lá no interior, não passa o carteiro. - Respondeu ela. - Tenho que pegar a correspondência aqui no Correio. E eu não sei o endereço de minha amiga. Assim, enviei um presente para ela lá da Bahia para provar que estive lá, no meu nome e endereço. Hoje vim pegar este pacote. É um quadrinho daqueles que enfeitam a parede, tipo: Lembrança de Porto Seguro. Mas ela verá pelo carimbo do correio de lá que foi enviado por mim da Bahia de verdade. Genial, não?


   

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

As Máximas de Bere 1 - Expressões de efeito e Profundidade

   Pensamentos de Bere que foram postos em cartas escritas há anos, ou em algumas pastas do seu notebook. Bere faleceu em setembro de 2013, mas deixou este legado maravilhoso de ideias que fazia sobre a vida, o dia a dia e o amor.