sábado, 21 de novembro de 2015

Hora da Faxina: Forno de Barro





 Forno de Barro

   Um forno de tijolos maciços sentados com barro. Barro do bom! Este era e sempre será o autêntico forno à lenha, de barro, das casas simples do interior. E existem muitos por aí. lembrar um forno de barro é voltar à infância e à fartura dos fins de sexta-feira, quando duas fornadas anunciavam uma semana de repetições: pães, cucas e roscas de polvilho. A primeira fornada sempre era a das roscas porque elas exigiam uma quentura espetacular para se tornarem grossas e aeradas, ao mesmo tempo cozidas por dentro. Depois vinha a fornada dos pães e das cucas. Quinze minutos antes eram postas as cucas ocupando a metade do forno: seis cucas. Depois, acrescentavam-se mais seis formas de pão, para assarem juntos. E a provisão para a próxima semana estava garantida.
   Quem não se lembra daquele cheiro das roscas assando sobre as folhas de bananeira, que aos poucos iam sapecando nas bordas, dando um detalhe de defumado no sabor final. Gosto único, com sabor de mato, que fazia a gente até comer demais. E no fundo, o doce gosto de banana misturado ao sabor da rosca, agregado a partir da folha verde que servia de base à rosca. Era uma arte equilibrar aquela massa mole sobre as folhas antes de estarem assadas.
   Nos idos dos anos oitenta, meu sogro morava no mesmo pátio aqui de casa, em sua casa feita nos fundos da minha. Resolvemos fazer um forno de barro para a sogra pois ela gostava muito de fazer estas gostosuras, além das fornadas de doces de Natal que ela distribuía entre toda a filharada. 
   Ficamos sabendo que tinha um fazedor de forno muito bom. O chamamos, ele fez o orçamento e como achamos o preço justo, o contratamos para construir o forno. Ele pediu o material, providenciamos e o forno foi iniciado. Até meu sogro havia perguntado a ele se não queria fazer uma forma para montar a parte de cima do forno e ele rindo, disse que sabia fazer 'a olho', não precisava de forma. E ele construiu um forno maravilhoso, no capricho. Enquanto ele estava construindo, a sogra um dia em conversa com ele, disse que achava pouca altura dentro do forno, ao que o pedreiro retrucou dizendo que ele sempre fazia assim, pois assava os pães com menos lenha fazendo deste jeito. E ainda disse a ela que fazia questão de ganhar um pão da primeira fornada pois queria ver e saborear o fruto do seu trabalho. E a sogra prometeu dar um pão da primeira fornada a ele.
   Depois de uma semana de trabalho, tudo bem feitinho, os tijolos ligados com barro amassado do próprio pátio, o forno estava pronto. Aqui, como o terreno original era lodoso, dava um barro muito bom para fazer liga de massa para fornos. Enquanto o pedreiro fazia os últimos acabamentos rebocando, finalizando, já foi queimando algumas taquaras com jornal dentro do mesmo forno para 'curar' ele. E no acrescentar de taquaras secas, alguma lenha leve e folhas de jornal, a chaminé do mesmo chegou a assobiar tamanha a troca de energia, deixando a parte de cima, o teto do forno incandescente devido ao calor. Tudo virou uma liga de barro, como um grande vaso.
   Isto aconteceu no final da tarde de sexta-feira. No sábado, a sogra, louca para inaugurar o forno, acordou cedo e fez uma amassada de massa para 8 pães, um pouco mais da metade da capacidade do forno, onde cabiam 12 formas grandes. Quando o pão estava crescido, eu e meu sogro enchemos o forno de gravetos e lenha pesada e ateamos fogo para aquecê-lo. Quando tudo virou cinza, os pães já haviam crescido em suas formas e a sogra colocou eles no forno para assá-los. E todo o processo foi maravilhoso. Só que teve um problema: todos os pães grudaram no céu do forno porque ele tinha ficado muito baixo e os pães, que cresceram bastante, não tiveram espaço pela sua expansão.
   Todos os pães ficaram pela metade. O resto foi posto fora porque era uma mistura de pó de barro com tijolos e massa. Mas um dos pães a sogra preservou e no domingo levou até a casa do pedreiro que não era longe dali, e lhe presenteou com este pão barrento, agradecendo o trabalho maravilhoso que ele havia feito. 
   Bom, pra finalizar, tivemos que desfazer todo o forno e refazê-lo, agora com uma forma de altura suficiente para os pães crescerem sem atingirem o forro.

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