domingo, 23 de maio de 2010

Um documento do tempo da Segunda Guerra

      Eu, Leopoldo Gegler, Tupandi município de Montenegro apresento aqui os danos causados pela guerra.

    No dia 23 de Setembro de 1942, antes do meio-dia, chegou à minha oficina o senhor subdelegado Armindo Carrad, juntamente com 2 soldados da brigada, todos armados. O subdelegado disse: “Tenho ordens para fazer uma busca em sua casa”. Então fomos eu e eles até minha casa. Primeiro, quebraram meu rádio à bateria. Então veio a vez da estante de livros. Foi retirado tudo e queimado do lado da cozinha. Eram os seguintes artigos que me lembro:
A coleção de Paulusblatt desde 1926 Cr$ 65,00
Stadt Gottes, revista católica de mensagens  Cr$ 30,00
Ignatius Fahne, anuário católico – 6 volumes Cr$ 12,00
Familienfreund – calendário – 7 volumes Cr$ 15,00
2 impressos de arte: Coração de Jesus e Jesus Crucificado Cr$16,00
O livro do centenário da imigração alemã Cr$ 30,00
Curso de escrituração – dupla escrituração Cr$ 90,00
Coleção de modelos para pintura em aquarela Cr$ 14,00
Livro infantil de imagens: uma visão dos bichos Cr$ 6,00
Mapa do Rio Grande do Sul Cr$ 30,00
                                 Total: Cr$ 308,00

Confiscados também foram os seguintes livros

Heróis de Alcáçar Cr$ 18,00
Emigrantes de Zillertahl Cr$ 18,00
Hansjakob (João Jacó) Cr$ 18,00
O Mundo Cr$ 20,00
Pater Pro Cr$ 4,00
Hans Sachs – Albrecht Dürer Cr$ 24,00
Biografia de Clássicos – Cr$ 30,00
                         Total: Cr$ 132,00


Todos os quartos e móveis foram vasculhados, segundo eles disseram, atrás de dinheiro e armas. Em uma gaveta eles encontraram moedas de prata brasileiras. Isto eles queriam. Meu filho Guido tinha medo de entregar uma parte de 5 mil réis a cada soldado. Com isto minha esposa se ofendeu com o comportamento da polícia e disse: “Teria sido melhor se tivéssemos atirado nosso ouro no arroio.” O delegado disse com rispidez: “Não quero nenhuma censura pois tenho o direito para fazer mais, eu posso também tomar o seu dinheiro.” Minha esposa perguntou o porquê desta injustiça para conosco. O subdelegado respondeu a isto: “Porque os alemães afundaram nossos navios.” Para mim disse o senhor Subdelegado: “Quanto eu sei tu não podes mais trabalhar e não podes mais enviar tua produção. Também está proibido sair deste distrito. Não existe licença.”  Eu disse então: “Então eu também não posso mais pagar nenhum imposto. Paguei imposto durante 20 anos e agora não posso mais trabalhar. Mas eu preciso prover pela minha familia com 10 filhos abaixo de 18 anos para que eles possam sobreviver. Eles são todos nascidos brasileiros.” Senhor Subdelegado respondeu a isto: “O imposto você é obrigado a pagar e os alemães não precisavam ter afundado os navios.” E então eles foram embora. O Subdelegado com os livros, o soldado Miguel com o rádio e o soldado Farias com a bateria. Toda a vizinhança presenciou o fato pois estava iniciando a tarde.

O senhor Padre Oscar Mallmann, Vigário de Harmonia havia me encomendado no ano de 1941 um altar. Este mesmo (altar) estava justamente meio acabado e eu ainda não havia recebido uma entrada pelo meu trabalho.

No dia 28 de Setembro de 1942, 5 dias após a vinda dos policiais, veio o senhor Padre Oscar Mallmann até mim: “Mas Gegler, o que tu fizeste (?) tu estás proibido de trabalhar, assim me contou Amir em Linha Bonita. Os soldados estiveram na tua casa? Também tu não podes mais sair do Distrito. Tu deves ter feito algo pois, senão o Armindo Carrad te teria deixado em paz. Não quero me complicar por causa disto. Não precisa mais trabalhar no Altar, já que não podes mais montá-lo. Daqui para a frente não tenho mais tempo para ti.” Ele foi embora. Um tempo depois o senhor Padre Oscar Mallmann me desencomendou por escrito o Altar. Também outros trabalhos que já estavam iniciados foram desencomendados, algo que de fato já podia ser previsto.

No dia 11 de Dezembro de 1943 eu pedi baixa do meu imposto sobre a profissão porque podia antever que não teria mais o dinheiro para pagá-lo. Neste meio tempo trabalhei na roça plantando milho, criando acácia a partir de sementes e trabalhando como diarista. Também trabalhei no Altar. As coisas andavam miseravelmente mal. No dia 29 de Novembro de 1943 mandei por escrito um pedido ao senhor Subdelegado a fim de conseguir uma licença  para sair do município, mas como mostra o documento em anexo, sem sucesso. Eu queria oferecer meus serviços em alguma firma em Novo Hamburgo ou Porto Alegre. Neste meio tempo minha família havia gasto todas as economias de Cr$ 8000,00 da poupança e eu precisei me endividar para que pudéssemos continuar vivendo. Para o Natal de 1943, por intermédio do senhor Dr. Jacinto Rosa consegui o rádio de volta, mas trabalho eu não tinha. Até Maio de 1944 eu tinha acabado o Altar que havia sido desencomendado e o vendi como se diz – no mercado negro – pela metade do preço. Seu valor era de 11 Contos e eu só consegui 5 ½ Contos por ele. Mas eu precisava de dinheiro para viver. Em Novembro de 1944 veio novamente a primeira encomenda do município de Santa Rosa. Então eu reiniciei o pagamento sobre o imposto de minha profissão em 13 de Janeiro de 1945. Mas meus bons ajudantes neste meio tempo desapareceram e eu não pude mais os trazer de volta.

2 comentários:

  1. Onde foi publicada essa declaração, na época, Pio?

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    1. Arlete, não foi publicado. Simplesmente este é um artigo escrito por um coitado alemão espoliado de seus bens, sem direito a recursos e que resolveu por no papel sua indignação.

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